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Como detectar um deepfake?

Crédito, Reprodução
O uso de um vídeo do ex-presidente Jair Bolsonaro, gerado por inteligência artificial, no lançamento da candidatura de seu filho, Flávio Bolsonaro, à Presidência da República levantou uma série de dúvidas.
É lícito usar esse tipo de conteúdo em uma campanha? O que significa, na prática, que um ex-presidente preso e proibido de se manifestar politicamente apareça, com seu rosto e sua voz, transmitindo uma mensagem em um evento eleitoral?
Mais do que a repercussão do caso — que ainda aguarda uma decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) —, o episódio evidencia o quanto a tecnologia de geração de imagens avançou nos últimos anos. A ponto de já ser usada de forma convincente em uma campanha política.
Se, há dois anos, imagens produzidas por IA ainda causavam estranhamento, com mãos deformadas, dedos em excesso e movimentos sem sentido, hoje a tecnologia se tornou realista o suficiente para enganar e causar danos.
Esse tipo de vídeo é também conhecido como deepfake, técnica que manipula ou cria vídeos, áudios e imagens falsos, com alto grau de realismo.
Ainda é possível diferenciar uma imagem real de outra completamente inventada por uma máquina?
Para Fábio Goveia, professor da Universidade Federal do Espírito Santo e coordenador do Laboratório de Internet e Ciência de Dados (Labic-UFES), a resposta curta é não — especialmente quando se trata de uma pessoa pública.
Goveia explica que figuras públicas têm um volume maior de imagens disponíveis na internet, o que facilita a produção de resultados mais realistas.
"Há um acervo muito grande de imagens na internet disponíveis. A tendência é que a IA fique mais perfeita, tornando mais difícil identificar apenas visualmente se é uma IA ou não."
Veja abaixo casos de uso de IA em imagens identificados por repórteres da BBC e também dicas de Goveia de como checar se uma imagem é feita por IA.
Encontre a origem da imagem

Crédito, Reprodução/Instagram
Fim do Promoção Agregador de pesquisas
Em outubro de 2025 viralizou nas redes sociais uma imagem de uma mulher e uma criança, diante de homens armados, no Sudão.
O país vive atualmente uma das piores emergências humanitárias do mundo.
Segundo a ONU, três milhões de crianças menores de cinco anos sofrem de desnutrição aguda. Os hospitais que restam estão sobrecarregados.
A imagem tentava ilustrar a violência cometida pelas Forças de Apoio Rápido (RSF), uma força paramilitar do Sudão, após a tomada da cidade de el-Fasher.
Embora grande parte do material gráfico que aparece na internet seja real, esta foto que acumulou milhões de visualizações online foi, na verdade, gerada por meio de inteligência artificial, segundo apurou a BBC.
A imagem parece mostrar as sombras de dois homens empunhando armas diante de uma mulher no chão, segurando um menino pequeno.
Mas como a BBC descobriu que a imagem foi gerada por IA?
A pista está na própria imagem: uma pequena marca d'água no canto inferior esquerdo com um nome de usuário.

Crédito, Reprodução/Instagram
Isso levou repórteres da BBC a uma conta no Instagram que publicou pela primeira vez uma versão animada dessa mesma cena.
A própria legenda da postagem diz que a cena foi gerada por IA, e o criador se descreve como um "Especialista em IA Criativa" em seu perfil.
Na cena animada, há pistas visuais mais evidentes de geração por IA, como o fato de os braços da mulher e do menino se entrelaçarem de maneiras impossíveis.
Para Goveia, pequenos detalhes ainda podem denunciar uma imagem sintética, embora nem sempre sejam perceptíveis para o público geral.
"Existem, às vezes, elementos que permitem a identificação, como acabamentos ou detalhes de limites entre uma imagem e outra e a relação figura-fundo, que às vezes fica meio borrada."
Procure outros ângulos da mesma cena

Crédito, Reprodução/Facebook
No início deste ano, a polícia antiterrorismo da Hungria prendeu sete funcionários de bancos ucranianos que transportavam US$ 80 milhões (R$ 409,3 milhões) e 9 quilos de ouro em veículos de segurança, a caminho da Ucrânia.
As relações entre Hungria e Ucrânia, antes melhores, se deterioraram após o ex-primeiro-ministro Viktor Orbán, que esteve no poder até maio deste ano, estreitar laços com Vladimir Putin.
O chanceler ucraniano Andriy Sybiha acusou a Hungria de manter os funcionários como reféns e roubar o dinheiro.
O banco estatal afirmou que tinha licença válida e fazia uma viagem rotineira entre Áustria e Ucrânia. Já o governo húngaro alegou suspeita de lavagem de dinheiro e possível financiamento de forças pró-ucranianas.
Naquele momento, meios de comunicação húngaros favoráveis ao governo divulgaram imagens geradas por inteligência artificial para noticiar as prisões, apresentando-as como reais. Um deles publicou imagens hiperrealistas da operação.
Neste caso, o contexto foi essencial para identificar a falsificação.
A BBC encontrou, na página oficial do governo húngaro no Facebook, um vídeo que mostrava a operação e comparou as imagens com outros registros da mesma cena. As imprecisões nos uniformes dos policiais e nas roupas dos ucranianos detidos indicavam que o material havia sido gerado por IA.
Outro indício decisivo estava nos crachás dos policiais: as inscrições não estavam em húngaro. Além disso, as letras "NAV" sugeriam que as prisões haviam sido feitas por uma autoridade alfandegária, que não aparecia nas imagens verdadeiras.
Para o cidadão comum, a primeira etapa indicada por especialistas é verificar se outras fontes já analisaram aquele conteúdo. Goveia chama esse procedimento de engenharia reversa.
"A primeira estratégia é, se houver dúvida, procurar na internet se alguém já comentou alguma coisa sobre aquela imagem."
Fique atento a conteúdos repetidos

Crédito, Reprodução/Youtube
Uma característica comum de vídeos gerados por IA é que seus criadores tendem a replicar o mesmo conteúdo diversas vezes, em busca de mais engajamento e cliques.
Em julho, a BBC News Brasil investigou uma indústria de produção de vídeos de falsos médicos gerados por IA, usados para gerar engajamento, ganhar com anúncios no YouTube e até vender e-books.
Embora as próprias imagens possam causar estranheza, por causa de movimentos estranhos, a reportagem mostrou que esses vídeos já atingiram mais de 70 milhões de visualizações só no Brasil.
Há também centenas de comentários de pessoas que dizem que irão seguir as recomendações desses falsos médicos.
Mas ao buscar os títulos dos vídeos dessas recomendações, a BBC News Brasil identificou que um mesmo vídeo era publicado em diversos canais, mudando apenas o nome do falso médico. Em alguns casos havia até conteúdos sendo replicados em espanhol e em inglês.
A reportagem também entrevistou um médico real, Hélio Brasileiro, que teve a imagem e a voz clonadas por IA e replicadas em diversos canais com nomes diferentes.
Em vídeos, Goveia recomenda observar a relação entre os movimentos e o áudio.
"Buscar, por exemplo, se o olho da pessoa pisca repetidamente e de maneira dessincronizada com as emoções, ou se ela não pisca."
Ele também sugere verificar se a boca acompanha o som do que está sendo dito.
Use detectores de IA (mas tome cuidado com o resultado)

Crédito, Getty Images
O uso de detectores de imagens geradas por IA, como o SynthID, do Google, tem se popularizado, mas o resultado deve ser visto com cautela.
Goveia recomenda começar pelas ferramentas de busca disponíveis para qualquer usuário, como o próprio Google.
O professor afirma que ferramentas de inteligência artificial também podem ajudar na investigação, mas recomenda que o usuário faça uma busca mais ampla e compare diferentes evidências.
"É claro que há outras ferramentas de identificação, mas eu diria para fazer esse trabalho, muitas vezes, de engenharia reversa, com as próprias ferramentas de inteligência artificial."
Nenhum detector deve ser tratado, sozinho, como prova definitiva.
O resultado precisa ser confrontado com a origem do conteúdo, o contexto da publicação, outros registros da mesma cena e sinais visuais ou sonoros de manipulação.
Para imagens estáticas, Goveia recomenda observar partes do corpo e detalhes que podem revelar inconsistências.
"Numa imagem estática, a tendência é você olhar os detalhes, como o nariz, como os olhos, como o formato dos olhos, como os dedos, as mãos, se estão completas, se os pés estão aparecendo de maneira completa."
No caso de áudios, ele sugere atenção à naturalidade da voz.
"Se for um áudio, se a voz está muito robótica, se não tem flexões de sentimento na voz, isso tudo são marcadores que nos ajudam a identificar se é real ou não."
O avanço da tecnologia torna cada vez mais difícil distinguir, apenas pela aparência, o que é real e o que foi criado artificialmente.
Por isso, a checagem deve combinar observação, pesquisa e comparação com fontes confiáveis.
"A dica de ouro é: desconfie e pense muitas vezes antes de compartilhar", diz Goveia.




























