Trabalhador de app tem jornada maior, mas ganha menos por hora, aponta estudo do IBGE

Crédito, Vitor Serrano/BBC
O jovem Pedro Ivo, de 18 anos, começou a trabalhar com entregas em aplicativos no início deste ano, depois de deixar um emprego de jovem aprendiz. "Eu recebia um pouco menos de um salário mínimo e o dinheiro meio que não dava para quase nada", conta.
Segundo ele, o cálculo fez sentido. "Valeu a pena. A renda acho que quadruplicou do que eu tinha para hoje."
Assim como ele, 20,8% dos trabalhadores de plataformas digitais no Brasil trabalham com essa motivação: afirmam que o rendimento é maior do que em outros trabalhos.
Mas nos últimos três anos a renda média dos trabalhadores que atuam por meio de plataformas digitais se igualou à dos demais trabalhadores do setor privado, e ainda com um porém: a jornada semanal de quem trabalha por apps é, em média, 5,4 horas maior.
Os dados foram divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta sexta-feira (4/9), em um levantamento experimental que o instituto tem feito para obter um raio-x do setor. Os dados foram levantados no 3º trimestre de 2025.
De 2022 a 2025, o rendimento dos trabalhadores de aplicativos registrou uma pequena oscilação, enquanto a dos demais ocupados cresceu 10,6%.
Em 2025, quem trabalhou em apps recebia, em média, R$ 3.147 por mês. Já os demais, R$ 3.148. Quando a primeira pesquisa da série histórica foi realizada, em 2022, a média de rendimento mensal era de R$ 3.115 para quem trabalhava em apps, contra R$ 2.847 dos outros. A vantagem salarial desapareceu.
Em um ano, a renda de quem estava ocupado no setor privado aumentou 4,1%. Isso devido a, entre outros fatores, um mercado de trabalho que está aquecido e uma taxa de desocupação baixa, explica Gustavo Geaquinto, analista do IBGE.
Enquanto isso, a renda dos trabalhadores de aplicativos praticamente não avançou em termos reais no mesmo período.
"A estabilidade do rendimento médio desses trabalhadores, em parte, vai refletir o fato de que não foi registrado nesse mesmo período nenhum ganho real no rendimento dos motoristas de automóveis ou motocicleta por aplicativo. Cerca de três quartos do total dos plataformizados estão nessas duas categorias", diz o analista.
"O que pode estar acontecendo especificamente nessas plataformas? Não se sabe. Pode ter a ver com a oferta de trabalho aumentando nessas plataformas. Podem ter várias questões. Mas essas duas categorias não tiveram um ganho salarial real nesse período."

Fim do Promoção Agregador de pesquisas
Na última terça-feira (1º/9), entregadores de aplicativos realizaram manifestações por melhores condições de trabalho e reajuste nos repasses que recebem das plataformas.
Em diversas cidades, o chamado "breque dos apps" pediu, entre diversas reivindicações, uma taxa mínima de R$ 10 nas entregas de até quatro quilômetros e mudanças no projeto de lei que regulamenta os direitos da categoria.
Uma diferença salarial entre trabalhadores de plataformas e os demais, no entanto, aparece quando o rendimento é comparado ao número de horas trabalhadas. Eles cumpriram, em média, 44,7 horas semanais no trabalho principal, contra 39,3 horas entre os demais trabalhadores do setor privado.
Ou seja, por hora trabalhada, receberam R$ 16,20 contra R$ 18,40 dos que não trabalham para apps.
A pesquisa do IBGE mostrou que, no 3º trimestre de 2025, eram ao menos 2 milhões de pessoas que trabalhavam por meio de plataformas digitais — entre motoristas de transporte de passageiros, entregadores e comerciantes. Mais da metade, 55,3%, está concentrada nos Estados do Sudeste.
Desses, 1,8 milhão eram trabalhadores que tinham as plataformas como seu trabalho único ou principal, o que corresponde a 92,1% do total, o que representou um crescimento de 36,8% em relação à pesquisa de 2022.
Neste ano, o IBGE também investigou pela primeira vez o principal motivo para os trabalhadores exercerem sua função por meio de aplicativos.
O fator mais mencionado para a adesão a esse tipo de trabalho foi a flexibilidade dos apps, citada por 26,8% daqueles que têm as plataformas como principal fonte de renda. Em segundo lugar, a falta de outro trabalho, argumento de 24,6% dos trabalhadores. Depois, vieram os que acham que o salário é maior do que em outras empresas.

Quem são os trabalhadores de apps no Brasil?
Os homens correspondem a 84,4% dos trabalhadores de aplicativos no Brasil, uma proporção muito maior do que a média geral dos demais trabalhadores do setor privado, em que os empregados do sexo masculino representam 58,2%.
Quanto à escolaridade, prevalecem as pessoas com níveis intermediários, principalmente com ensino médio completo ou superior incompleto, que são 62,5% do total. Já pessoas sem instrução ou com ensino fundamental incompleto correspondem a 8,3%.
No entanto, para os trabalhadores dessa faixa de menor instrução, a plataforma oferece uma remuneração superior às alternativas do mercado tradicional: o ganho por hora dos plataformizados sem instrução é 11,5% maior do que o dos demais trabalhadores de mesma escolaridade.
Boa parte trabalha com aplicativos de transporte particular de passageiros. Eles são quase 1,2 milhão de pessoas, ou 58,9% do total de trabalhadores por aplicativo. O setor de transporte, armazenagem e correios concentra sozinho 75% de todas as pessoas que trabalham com essas plataformas. Em seguida, estão os aplicativos de entrega, utilizados por 585 mil trabalhadores.

Crédito, Mauro Pimentel/AFP via Getty Images
Geaquinto, do IBGE, explica que o chamado trabalho plataformizado é aquele realizado por meio de aplicativos que, além de conectar os trabalhadores aos clientes, exercem algum grau de controle sobre a atividade.
"As plataformas digitais são consideradas como qualquer interface digital que gere valor econômico ou social, que faça a intermediação entre três agentes: a unidade econômica proprietária da plataforma, o prestador de serviço de trabalho, a exemplo do motorista de aplicativo, e o usuário final de bens e serviços, ou seja."
A plataforma precisa ter ferramentas que permitam à empresa controlar ou monitorar o trabalho.
"Além de uma simples intermediação, entende-se que essa plataforma fornece serviços e ferramentas que permanecem sob o controle da unidade econômica dessa plataforma. Elas permitem que essa empresa exerça algum grau de controle sobre as atividades realizadas."
Falta de proteção social
De um lado, as plataformas ampliaram as oportunidades de geração de renda para muitos trabalhadores, permitiram que empresas alcançassem novos mercados e reduzissem custos, diz Geaquinto. De outro, pondera o analista do IBGE, elas trazem desafios relacionados às condições de trabalho e ao acesso a direitos.
Os dados do IBGE mostram que esses trabalhadores têm menor cobertura previdenciária e um grau maior de informalidade que os demais empregados do setor privado.
Em 2025, 62,4% das pessoas ocupadas no setor privado eram contribuintes do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Entre os trabalhadores de apps, eram apenas 34%. A informalidade também era maior entre este grupo: 72,1%, contra 42,7%.
O levantamento também procurou medir o grau de dependência dos trabalhadores em relação às plataformas digitais. Foram analisados fatores como quem determina o valor a ser recebido pelo trabalho, os prazos para o cumprimento de tarefas, a escolha de clientes e a influência dos aplicativos sobre a jornada de trabalho.
"Mesmo na ausência de vínculos empregatícios formais com as empresas que pontuam em tais aplicativos, há evidências de certo grau de dependência da maior parte desses trabalhadores em relação às plataformas", afirma Geaquinto.
Um dos indicadores usados pelo IBGE para medir essa dependência foi o número de plataformas usadas pelos trabalhadores.
"Se elas trabalhavam em uma única plataforma ou por meio de vários aplicativos diferentes, são informações importantes para entender essa dependência. Por exemplo, elas poderiam sofrer um bloqueio no aplicativo e não ter outra alternativa, porque não têm acesso a mais de um aplicativo", explica o analista.
Dos 1,8 milhão de profissionais que têm os aplicativos como principal fonte de renda, 62,7% atuavam exclusivamente por meio das plataformas. Os outros 37,3% conciliavam essa atividade com outras ocupações.
Dentro do grupo que trabalhava exclusivamente por meio das plataformas, 701 mil pessoas utilizavam apenas um aplicativo.
"Lembrando que trabalhar com um único aplicativo pode não ser uma escolha. Por exemplo, às vezes uma pessoa de uma cidade menor no interior só tem um aplicativo disponível. Ou até é um aplicativo local", diz o analista do IBGE.
O setor é alvo de debates no Congresso sobre a regulamentação do trabalho intermediado por aplicativos, com discussões voltadas para o estabelecimento de garantias previdenciárias e pisos remuneratórios. Mas trabalhadores, representantes das empresas e governo ainda não chegaram a um acordo.
Gráficos por Caroline Souza, da equipe de Jornalismo Visual da BBC News Brasil

























