Gloria Steinem, um ícone do feminismo americano que se infiltrou na Playboy para denunciar as condições de trabalho das mulheres

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- Author, Tiffany Wertheimer
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Com seus icônicos óculos de sol de aviador e os longos cabelos loiros com mechas — que ela considerava um ato de rebeldia na década de 1970 —, Gloria Steinem foi uma ativista internacionalmente reconhecida na luta pela igualdade das mulheres.
Ela se posicionou a favor da legalização do aborto, do casamento entre pessoas do mesmo sexo e da igualdade de direitos e salários para as mulheres, além de protestar contra a pena de morte e a mutilação genital feminina.
Seu ativismo também provocou reações negativas, tanto de homens quanto de mulheres, além de episódios de assédio que podiam ser tão vulgares quanto intimidadores.
Aos 92 anos, Steinem morreu nesta quarta-feira (2/9), deixando uma marca profunda na história do movimento feminista americano.
Os primeiros anos
Gloria Steinem nasceu em 25 de março de 1934, em Toledo, Ohio, e não teve uma infância fácil.
Seu pai, Leo Steinem, era vendedor ambulante. Ele vivia com a mulher, Ruth, e a filha mais velha, Susanne, em uma caravana, percorrendo o país de um extremo ao outro.
Leo abandonou a família e se mudou para a Califórnia quando Steinem tinha 10 anos, deixando-a aos cuidados de Ruth, que sofria de uma doença mental e tinha alucinações assustadoras.
Como resultado, Steinem só começou a frequentar a escola em período integral aos 12 anos.

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Mais tarde, ela diria que nunca quis ter filhos porque já tinha um: sua mãe.
No fim da década de 1950, viajou para a Índia com uma bolsa de pesquisa e passou dois anos desempenhando diferentes funções. Entre elas, ajudou mulheres de aldeias a organizar protestos não violentos contra políticas do governo — experiência que despertou seu interesse pelo ativismo de base.
Steinem deixou a Índia e se mudou para Nova York no início da década de 1960 para começar sua carreira como escritora freelancer. Era uma época em que as redações, dominadas por homens, dificultavam que mulheres conseguissem fazer reportagens de grande repercussão.
Infiltrada na Playboy
A grande oportunidade de Steinem surgiu em 1963, quando ela se infiltrou na Playboy como garçonete e escreveu A Bunny's Tale (A história de uma coelhinha, na tradução para português), uma reportagem para a revista Show que expunha a realidade sórdida e sexista do império de Hugh Hefner.
Assim que chegou para a entrevista, um segurança gritou: "Aqui, coelhinha, coelhinha, coelhinha!".

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Usando o nome falso de Marie, ela mentiu sobre a idade: disse à Playboy que tinha 24 anos, quando na verdade era quatro anos mais velha.
Steinem revelou as condições precárias de trabalho das coelhinhas da Playboy, que recebiam baixos salários, além das dores físicas causadas por horas de salto alto e espartilhos apertados.
Apesar da fama — e da infâmia — que vieram com a reportagem, ela continuava tendo dificuldades para que os editores a levassem a sério.
Embora o artigo da Playboy tenha ajudado Steinem a conseguir trabalhos para o New York Times e a revista New York Magazine, muitas vezes as pautas eram sobre meias femininas e os últimos penteados.
"Até hoje, quando as pessoas não gostam de mim, sou apresentada como uma ex-coelhinha, para me menosprezar", disse ao New York Times em 2016.
"Por outro lado, consegui melhorar as condições de trabalho dessas mulheres."
Jornalismo exclusivamente feminino
Sem se deixar desanimar, em 1968 Steinem já era colunista da revista New York Magazine, onde se dedicava a temas sociais progressistas e aos direitos das mulheres.
Seu artigo Depois do Poder Negro, a Libertação das Mulheres lhe deu fama nacional e a transformou no rosto do movimento feminista americano na década de 1970.
"Eu era a única mulher e, depois de escrever um artigo sobre aborto, meus amigos [homens] me disseram: 'Não se envolva com essas loucas. Você se esforçou tanto para que levassem você a sério'", contou a Rachel Cooke, do The Guardian, em 2011.
Foi então que decidiu tomar a iniciativa.
Em 1972, lançou a revista Ms. ao lado de um grupo de ativistas feministas. Foi a primeira publicação periódica fundada e dirigida exclusivamente por mulheres, concebida como uma alternativa às outras revistas femininas, que geralmente se concentravam em temas relacionados à casa e à moda.

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Seus críticos, em sua maioria homens, não demoraram a atacá-la. O apresentador de telejornal Harry Reasoner disse que daria seis meses "até que acabassem as coisas que elas tinham para dizer".
A primeira edição se esgotou em uma semana e conquistou 26 mil assinantes. A revista continua sendo publicada até hoje.
Em 1978, Steinem escreveu um dos ensaios mais famosos e lidos da revista Ms.: Se os homens pudessem menstruar.
Sua reflexão satírica sobre como as estruturas de poder, políticas e econômicas poderiam ser diferentes se os homens tivessem ciclos menstruais ainda é mencionada em debates sobre papéis de gênero.
No fim de sua carreira, Steinem havia se tornado uma escritora prolífica e premiada, autora de diversos livros, entre eles suas próprias memórias, uma biografia de Marilyn Monroe e uma coletânea de suas frases mais famosas, ironicamente intitulada The Truth Will Set You Free, but First It Will Piss You Off (A verdade vai te libertar. Mas antes ela vai te enfurecer, na tradução livre para o português).
Ativista pelo direito ao aborto
Embora ainda seja considerada uma das ativistas feministas mais conhecidas do mundo, Steinem só se dedicou ao ativismo mais tarde, quando tinha 30 e poucos anos.
Em uma manifestação em defesa ao direito do aborto realizada em 1969, na qual mulheres compartilhavam suas experiências, Steinem foi incentivada a contar sua própria história sobre a interrupção de uma gravidez.
Isso havia acontecido anos antes, em Londres, quando ela tinha 22 anos, pouco antes de viajar para a Índia.
Na época, o aborto era ilegal no Reino Unido, exceto quando a saúde física ou mental da mulher estava em risco. O médico assumiu um grande risco ao atender Steinem e lhe disse: "Você precisa me prometer duas coisas. Primeiro, não contará a ninguém o meu nome. Segundo, fará da sua vida o que quiser".
Quase 60 anos depois, Steinem quebrou uma dessas promessas ao dedicar suas memórias, My Life on the Road (Minha vida na estrada, na tradução para o português), ao médico John Sharpe.
Ela descreveu aquela manifestação sobre o aborto como um "momento revelador", quando percebeu que os Estados Unidos precisavam de um movimento maior pelos direitos das mulheres.
Steinem se tornou uma defensora ferrenha do direito ao aborto, que chamou de "liberdade reprodutiva". A expressão é creditada a ela por ter tornado o tema mais acessível ao debate político e continua sendo usada nas discussões sobre o aborto.

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Steinem organizou marchas e logo se tornou uma das figuras mais conhecidas dos protestos, embora mais tarde tenha admitido que falar para multidões tão grandes era "absolutamente aterrorizante".
Depois que o Congresso fracassou, em 1970, em aprovar a Emenda de Igualdade de Direitos (ERA, na sigla em inglês) — que garantiria às mulheres os mesmos direitos que aos homens —, Steinem fundou, ao lado de outras líderes feministas e de mais de 300 mulheres de todo o país, o Caucus Político Nacional de Mulheres. O grupo trabalhava para ampliar a participação feminina em todos os aspectos da vida política e pública.
Naquele mesmo ano, Steinem prestou depoimento em uma audiência no Senado sobre a ERA. Diante de uma plateia formada majoritariamente por homens, ela afirmou: "Fui impedida de ser atendida em restaurantes, expulsa de locais públicos de reunião e tive pedidos de aluguel de apartamentos recusados, tudo pela razão claramente declarada e única de que sou mulher".
A segunda onda do feminismo continuava ganhando força, e Steinem se tornou uma de suas principais figuras.
Glamour demais?
No entanto, as críticas vieram tanto da esquerda quanto da direita, e Steinem era atacada por tudo, desde sua aparência até suas motivações.
Alguns diziam que ela era glamourosa demais para ser uma verdadeira feminista, enquanto outros afirmavam que seu sucesso se devia apenas à sua imagem.
Betty Friedan, autora de A Mística Feminina, livro considerado responsável por dar início à segunda onda do feminismo, ficou incomodada ao ver Steinem se tornar o rosto do movimento. Quando Steinem lançou a Ms., Friedan a acusou de "se apropriar do movimento para obter ganhos pessoais".
A imprensa tenta "transformá-la em uma celebridade", reclamou Friedan, "mas ninguém deveria confundi-la com uma líder".

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O presidente americano Richard Nixon foi gravado durante uma conversa secreta, na qual fez duras críticas a Steinem. Ela respondeu: "Há quem considere Richard Nixon o chefe de Estado mais inseguro sexualmente desde Napoleão".
Al Goldstein, conhecido por seu trabalho como produtor de conteúdo pornográfico e editor da revista Screw, lançou uma campanha de ataques contra Steinem que incluiu a publicação de seu número de telefone ao lado de anúncios falsos de sexo oral.
Ele também publicou uma imagem de página dupla de uma mulher parecida com Steinem e a deixou exposta na banca de jornais em frente ao escritório da revista Ms. Ela era obrigada a vê-la todos os dias.
Com o passar dos anos, assédios dessa proporção se tornaram menos frequentes. Ainda assim, por ser uma figura conhecida em Nova York, não era raro que desconhecidos a abordassem na rua para discutir com ela, às vezes em tom hostil.
Mas Steinem via com bons olhos a continuidade do debate. Em 2020, fez parte de um grupo diverso de figuras públicas que assinou uma carta aberta contra a cultura do cancelamento, afirmando que ela enfraquece o debate aberto ao silenciar as pessoas.
"Se você se importa em ter essa conversa, provavelmente vai querer tentar convencer a outra pessoa de uma maneira humana, e não cancelá-la", disse ao New York Times.
'Não consigo me relacionar em cativeiro'
Gloria Steinem certa vez brincou: "Não consigo ter um relacionamento em cativeiro", referindo-se à sua falta de interesse pelo casamento.
Ela teve publicamente uma vida amorosa ativa com vários homens solteiros, ricos e famosos, o que deu a seus críticos ainda mais motivos para atacá-la.
Entre eles estavam Frank Thomas, diretor da Fundação Ford; o cineasta Mike Nichols; e o decatleta olímpico Rafer Johnson, que ajudou a deter o homem que assassinou Robert F. Kennedy em 1968.
"Sempre me acusavam de me aproveitar dos homens, de ser sexual demais. Certa vez, alguém me enviou uma caricatura de uma lápide que dizia: 'Finalmente dorme sozinha'", escreveu.
Mas, em 2000, aos 66 anos, ela se casou com David Bale, empresário e ambientalista nascido na África do Sul e pai do ator Christian Bale.
Na época, o casamento provocou surpresa e até decepção entre algumas feministas, que durante anos haviam acompanhado os debates acalorados de Steinem sobre as leis matrimoniais.
Ela, porém, afirmou que essas leis haviam finalmente mudado. "Se eu tivesse me casado quando deveria, teria perdido meu sobrenome, minha residência legal, meu histórico de crédito e muitos dos meus direitos civis. Isso não acontece mais. Agora é possível se casar em condições de igualdade", explicou anos depois.
Steinem também admitiu que se tratava de um "casamento por conveniência", porque o visto americano de Bale estava prestes a expirar, mas afirmou que os dois se amavam e que ficariam juntos de qualquer maneira.

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Bale faleceu três anos depois devido a um linfoma cerebral.
Em 1986, Steinem enfrentou um câncer de mama e passou por uma lumpectomia.
'Há muito a fazer'
Gloria Steinem disse uma vez que queria viver até os 100 anos porque "há muito a fazer".
Ao longo de quase um século de vida, ela chegou a ser também uma talentosa dançarina de sapateado.
Em 2013, o presidente Barack Obama concedeu a ela a mais alta condecoração civil dos Estados Unidos, a Medalha Presidencial da Liberdade, em reconhecimento ao trabalho que ajudou a garantir que mais mulheres recebessem "o respeito e as oportunidades que merecem".
Em 2024, ela completou 90 anos. Vivia sozinha em Nova York, satisfeita com o fato de que a revista Ms. continuava sendo publicada.
Steinem aproveitou a ocasião para dizer à BBC que esperava que seu legado "pudesse ajudar as pessoas... a se tornarem uma pessoa única, valiosa, querida e digna de ser amada que desejam ser".
Ela será lembrada por dar voz às mulheres de uma maneira que os meios de comunicação tradicionais da época não podiam ou não queriam fazer.
E, ao fazer isso, transformou a forma como os direitos das mulheres eram discutidos nos Estados Unidos.




















