A prisão do condenado pelo assassinato de Víctor Jara, 53 anos após a morte do cantor chileno

Um cartaz pede verdade e justiça para Víctor Jara

Crédito, AFP via Getty Images

    • Author, Isabel Caro*
    • Role, BBC News Mundo
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A polícia de investigações do Chile prendeu o coronel reformado do Exército Nelson Hasse Mazzei, que permanecia foragido após ser condenado pelo sequestro e assassinato de Víctor Jara.

O militar, de 80 anos, foi condenado em 2023, em decisão definitiva, a um total de 25 anos de prisão por sua participação no crime contra o cantor e compositor chileno e no sequestro, tortura e homicídio do então diretor-geral de Prisões, Littré Quiroga Carvajal.

Referência da "Nueva Canción Chilena" [Nova Canção Chilena] e professor da Universidade Técnica do Estado, ele foi assassinado em 16 de setembro de 1973 no Estádio Chile (hoje Estádio Víctor Jara), apenas cinco dias após o golpe de Estado contra o governo de Salvador Allende.

A Justiça chilena determinou que o cantor e compositor fosse separado do restante dos quase 5 mil prisioneiros mantidos detidos no local e levado à área dos vestiários. Junto com Quiroga, sofreu graves agressões físicas e psicológicas antes de ser executado.

Seu corpo apresentava 56 fraturas e 44 perfurações por bala.

Seu caso é um dos mais emblemáticos da forma como a ditadura do general Augusto Pinochet exerceu a violência política. O regime militar, que se estendeu por 17 anos no país sul-americano, deixou milhares de pessoas torturadas, executadas e desaparecidas.

O Poder Judiciário chileno informou que, neste sábado (25/7), a ministra em visita para causas de Direitos Humanos da Corte de Apelações de Santiago, Paola Plaza, determinou o imediato recolhimento à prisão do ex-militar.

Segundo a imprensa local, o foragido da Justiça foi encontrado por agentes policiais em uma propriedade rural em Puyehue, na região de Los Lagos, no sul do país.

Hasse Mazzei foi condenado junto com outros sete ex-militares que também participaram dos crimes contra Jara e Quiroga, mas não se apresentou para cumprir a pena determinada em 2023 pela Suprema Corte.

Desde então, o coronel reformado permanecia foragido. Era o único dos condenados nesse caso que não cumpria pena.

A mais alta corte do país lhe impôs 15 anos de prisão pelo crime de homicídio qualificado e 10 anos por sequestro qualificado.

De acordo com a sentença condenatória, a Justiça chilena pôde estabelecer que, apesar de ter negado qualquer participação, Mazzei atuou na condição de autor dos crimes, integrando a estrutura interna de comando e portando armamento capaz de provocar os traumas e ferimentos que causaram tanto a morte de Jara quanto a de Quiroga Carvajal.

Também foram condenados pelo crime Hugo Sánchez, Raúl Jofré, Edwin Dimter, Ernesto Bethke, Juan Jara, Hernán Chacón e Patricio Vásquez. Na mesma sentença, o oficial Rolando Melo foi condenado como cúmplice dos crimes.

Chacón suicidou-se antes de ser preso, em agosto de 2023. Jofré, assim como Mazzei, também não se apresentou voluntariamente para cumprir a pena naquela ocasião.

Nesse mesmo ano, os Estados Unidos extraditaram para o Chile o tenente reformado do Exército chileno Pedro Barrientos, condenado no país norte-americano como autor material do assassinato e da tortura do cantor e compositor e de Littré Quiroga.

Quem foi Victor Jara

Homem agita uma bandeira com a imagem de Víctor Jara

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, A imagem de Víctor Jara continua sendo um ícone em protestos

Nascido em uma família camponesa do centro do Chile, Víctor Jara cresceu cercado de música. Sua mãe, Amanda Martínez, era cantora popular, convidada para acompanhar com seu violão a alegria dos casamentos e batizados, mas também a tristeza dos funerais.

Ela exerceu uma influência fundamental em sua vida, apesar de ele tê-la perdido ainda adolescente. A relação com seu pai, Manuel Jara, violento, alcoólatra e ausente, foi muito mais complicada.

O folclore em que cresceu e o compromisso social com os mais desfavorecidos marcaram sua obra, povoada por camponeses e operários, que foi adquirindo cada vez mais peso político.

Com suas canções e sua militância no socialismo à chilena, Víctor Jara tornou-se uma das principais vozes da campanha que levou a Unidade Popular e Salvador Allende à Presidência do país.

Durante os três anos do governo socialista, Víctor Jara dedicou seus esforços ao sucesso do projeto.

Foi um militante sem rodeios e colocou sua arte a serviço de uma causa, tentando inclusive incentivar o trabalho voluntário para contrapor-se às numerosas greves promovidas pela oposição contra o governo Allende, com canções como Qué lindo es ser voluntario.

"Agora que temos um governo popular, nós, trabalhadores da cultura, temos uma grande responsabilidade a cumprir", afirmou em uma entrevista em 1970.

Allende sempre reconheceu o papel que a cultura teve em sua vitória e tornou célebre a frase "não há revolução sem canções", dedicada aos jovens artistas que ajudaram a levá-lo ao Palácio de La Moneda.

Víctor Jara

Crédito, AP

Legenda da foto, Víctor Jara é lembrado como um dos maiores expoentes da música de protesto no Chile

Víctor Jara foi preso na Universidade Técnica do Estado em 12 de setembro de 1973, um dia depois do levante militar que derrubou Allende.

Foi levado, junto com outros professores e estudantes, ao Estádio Chile, que havia sido transformado em um centro de detenção.

Assim que chegou, um oficial reconheceu Víctor e deu uma ordem a um soldado: "Aquele filho da puta, traga ele para cá; aquele, aquele."

Com uma coronhada no estômago, fez com que ele caísse de joelhos e começou a chutá-lo. "Então você é o Víctor Jara, o cantor dessas merdas? Vou ensinar você a cantar canções chilenas, não comunistas, filho da puta." A cena é relatada pelo jornalista Freddy Stock na biografia 5 minutos. La vida eterna de Víctor Jara [5 minutos. A vida eterna de Víctor Jara, em tradução livre], com base no testemunho de outro sobrevivente do Estádio Chile.

Jara passou quatro dias no estádio, submetido a torturas constantes, mas com momentos em que pôde, às escondidas, escrever seu último poema, Estadio Chile, também conhecido como Somos 5.000.

Ele foi separado dos demais e trancado em uma sala junto com o advogado Littré Quiroga, diretor nacional de prisões durante o governo Allende. Jara recebeu 44 tiros e Quiroga, 23.

Víctor Jara tinha 40 anos.

Por que tanta crueldade contra um músico? Freddy Stock não tem dúvidas: Víctor Jara havia se tornado alguém perigoso para a ditadura. "Para a barbárie, a beleza é perigosa. Para a barbárie, o pensamento é perigoso e, para a barbárie, o amor é perigoso. E Víctor Jara encarnava tudo isso de muitas maneiras", afirma o jornalista.

Sua esposa, Joan, deixou o país secretamente depois da morte do cantor. Ela levou fitas cassete com sua música, que se tornou internacionalmente conhecida.

A obra de Jara, que inclui clássicos da canção popular latino-americana como Te recuerdo Amanda, El derecho de vivir en paz e Manifiesto, se tornou uma referência internacional entre as canções de protesto.

* Com informações de Paula Rosas, da BBC News Mundo