Eleições nos EUA: como fortalecimento do socialismo criou dilema para os democratas

Zohran Mamdani, prefeito de Nova York.
Legenda da foto, Zohran Mamdani, prefeito de Nova York
    • Author, Rafael Abuchaibe
    • Role, BBC News Mundo
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"O capitalismo é um sistema criado pela classe dominante para explorar o restante da população em benefício próprio. Precisamos substituí-lo pelo socialismo democrático, um sistema em que as pessoas comuns tenham voz ativa nos locais de trabalho, nos bairros e na sociedade."

É o que defende em seu site a organização Socialistas Democráticos dos Estados Unidos (DSA, na sigla em inglês), movimento de esquerda que vem ganhando importância e influência política desde 2018 nos EUA, país considerado o centro do capitalismo mundial.

Fundado na década de 1970 a partir da união de pequenas organizações de esquerda, o DSA permaneceu praticamente à margem da política americana até 2016, quando a campanha presidencial do candidato independente Bernie Sanders mudou a percepção de muitos americanos sobre o socialismo.

Desde então, o movimento ganhou cada vez mais projeção. Em 2018, duas de suas integrantes, Alexandria Ocasio-Cortez e Rashida Tlaib, conquistaram cadeiras na Câmara dos Representantes, equivalente à Câmara dos Deputados brasileira.

Em 2025, o DSA voltou a demonstrar sua força eleitoral com a vitória de um de seus candidatos, Zohran Mamdani, na disputa pela cobiçada Prefeitura de Nova York.

Da esquerda para a direita, Brad Lander, ex-controlador financeiro da prefeitura de Nova York e candidato democrata à Câmara dos Representantes dos Estados Unidos; Claire Valdez, deputada estadual democrata por Nova York e candidata à Câmara dos Representantes; Bernie Sanders, senador independente por Vermont; Zohran Mamdani, prefeito de Nova York; e Darializa Ávila Chevalier, candidata democrata à Câmara dos Representantes por Nova York, durante um comício para incentivar a participação dos eleitores nas prévias partidárias, realizado no Kings Theater, no Brooklyn, em Nova York, nos EUA, em 18/6/26.
Legenda da foto, Os Socialistas Democráticos dos Estados Unidos (DSA) ganharam força após a eleição de Mamdani para a prefeitura de Nova York

Nas eleições de meio de mandato desta terça-feira (3/11), em que serão renovadas todas as cadeiras da Câmara dos Representantes e um terço do Senado, os integrantes do DSA querem aproveitar o impulso da vitória de Mamdani para ampliar sua influência sobre as decisões e as propostas legislativas do Partido Democrata, especialmente na definição de como enfrentar os dois últimos anos de Donald Trump (Partido Republicano) na Presidência.

"Estamos vivendo um momento bastante assustador em muitos aspectos nos EUA. Muitas pessoas estão profundamente preocupadas com os rumos do país", disse Ashik Siddique, copresidente do DSA, em entrevista à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC.

"Esperamos que as eleições gerais tragam uma mudança mais ampla no país, especialmente com o fortalecimento do socialismo democrático como uma alternativa política própria e uma resposta às crises enfrentadas pela população. Não basta apenas se opor a Trump e ao avanço da extrema direita, como fazem muitos americanos."

Donald Trump aponta para a câmera.
Legenda da foto, Donald Trump e os republicanos classificaram os Socialistas Democráticos dos Estados Unidos (DSA) como 'extremistas' e 'lunáticos'

Mas esse crescimento também provoca preocupação e até pânico em alguns setores, que veem no DSA um movimento capaz de levar o Partido Democrata a adotar posições de esquerda radical, o que poderia resultar em derrotas eleitorais justamente em um momento em que o cenário parece favorável aos democratas.

"Alguns democratas reagiram com pânico à indicação de candidatos apoiados pelo DSA", afirmou um relatório do Brookings, think tank (centro de pesquisa e debates) que analisou as vitórias do movimento nas prévias partidárias de 2026.

O documento também diz que os democratas parecem ter chances de conquistar o controle da Câmara dos Representantes e do Senado devido à situação econômica e à baixa popularidade de Trump. "No entanto, muitos integrantes da ala de centro do partido temem que a escolha de candidatos cujas trajetórias não estejam alinhadas às preferências da maioria dos eleitores possa custar aos democratas o controle da Câmara e, sobretudo, do Senado."

Para outros, a influência do DSA está sendo superestimada devido à popularidade de alguns de seus candidatos. Segundo essa avaliação, apesar das vitórias eleitorais, o movimento continuará tendo pouca expressão na política americana.

Mas até que ponto as ideias do DSA são radicais? E quão "extremistas" são os candidatos apoiados pelo movimento? Qual poderá ser sua influência sobre o Partido Democrata e o cenário político e eleitoral dos EUA? E o DSA será um aliado ou representará um risco para os democratas nos dois últimos anos do governo Trump?

Socialismo americano

Eugene V. Debs discursa para uma multidão.
Legenda da foto, Eugene V. Debs disputou cinco eleições presidenciais nos Estados Unidos como candidato socialista

A ideia de adotar o socialismo democrático nos EUA não é nova. O candidato socialista Eugene V. Debs disputou a Presidência em 1904, 1908, 1912 e em 1920, quando recebeu quase 1 milhão de votos.

Mas, com a ascensão da União Soviética (1922-1991) no cenário mundial e, posteriormente, a Guerra Fria (1947-1991) entre americanos e soviéticos, surgiu nos EUA uma forte rejeição a tudo o que pudesse ser associado ao comunismo e ao socialismo. Essa resistência persistiu, em grande parte, até 2008.

"Muitos americanos sentem que o capitalismo não está funcionando tão bem quanto nos fizeram acreditar durante muito tempo", disse o copresidente do DSA à BBC News Mundo. "Havia a ideia, a expectativa, de que, se você se esforçasse, conseguisse um bom emprego ou abrisse um negócio, por exemplo, poderia ter uma vida melhor do que a dos seus pais. Mas essa promessa não se concretizou, especialmente desde a crise econômica de 2008."

Siddique, do DSA, faz parte da geração que chegou à idade adulta naquele período. Ele conta que foi nessa época que percebeu que, apesar de ter uma boa formação, enfrentaria mais dificuldades para conseguir um bom emprego do que as gerações anteriores.

"Quando vimos os bancos serem socorridos pelo governo e, ao mesmo tempo, todas as guerras iniciadas durante o governo de George W. Bush simplesmente continuarem, houve uma mudança."

Duas pessoas carregam uma placa do Lehman Brothers.
Legenda da foto, A crise financeira de 2008 mudou a visão de muitos americanos sobre o socialismo

"Foi por isso que, quando Bernie Sanders se candidatou à Presidência [em 2016] e chamou a atenção para muitos desses problemas, abriu-se espaço para mostrar que havia, de fato, uma alternativa. Muitas das justificativas que nos davam para explicar por que a política funciona da maneira como funciona simplesmente deixaram de fazer sentido", afirma Siddique.

Embora nunca tenha sido oficialmente filiado ao DSA, Sanders se define como socialista democrático, e boa parte de suas propostas acabou influenciando o programa político do movimento.

O programa critica a influência de grandes empresas e bilionários na política e defende várias das propostas apresentadas por Sanders no Senado.

O programa socialista

Alexandria Ocasio-Cortez faz um discurso acalorado sobre o Green New Deal, enquanto Bernie Sanders sorri ao fundo.
Legenda da foto, O Green New Deal (Novo Pacto Verde, em tradução livre) é uma proposta que busca acelerar a transição para o uso de energias renováveis nos Estados Unidos

O programa do DSA afirma que os principais setores da economia que influenciam nossas vidas, como a produção de energia e o transporte, devem ser controlados coletivamente. "Queremos uma classe trabalhadora formada por pessoas de diferentes origens raciais, unida pela solidariedade, em vez de dividida pelo medo", diz o programa.

O DSA também milita por reformas "radicais", como a criação de um sistema universal de saúde financiado pelo governo, conhecido como Medicare for All [Medicare para Todos, em tradução livre], a redução dos recursos destinados à polícia para investir nas comunidades e o Green New Deal [Novo Pacto Verde, em tradução livre], "além de outras medidas que fazem parte da transição para uma sociedade mais livre e justa".

Entre as propostas mais controversas estão a redução do orçamento do Departamento de Defesa, a extinção do Serviço de Imigração e Controle de Aduanas (ICE, na sigla em inglês), o fim das sanções econômicas contra países que não estejam alinhados aos interesses dos EUA e a extinção do Senado.

Além disso, o DSA abraçou a causa palestina e acusa Israel de cometer "genocídio" na Faixa de Gaza. O movimento também acusa os EUA de cumplicidade, devido à ajuda financeira e ao fornecimento de armas ao governo israelense de Benjamin Netanyahu. Essas posições provocaram rejeição ao movimento entre comunidades judaicas.

São propostas controversas como essas que preocupam muitos eleitores moderados e que têm sido exploradas nas campanhas de candidatos republicanos e do próprio presidente Trump, segundo Elaine Kamarck, pesquisadora do Brookings, em entrevista à BBC News Mundo.

"O problema, e a razão pela qual os democratas se irritam com eles, é que os republicanos são muito habilidosos em associar o restante do partido, sua imensa maioria, às propostas do DSA. E essas propostas são fatais [nas eleições]."

Mike Johnson durante um evento de campanha eleitoral.
Legenda da foto, Mike Johnson, presidente da Câmara dos Representantes dos EUA, está entre os republicanos que chamaram o DSA de 'marxista', 'comunista' e 'insurgente'

Embora muitos candidatos democratas tenham rejeitado publicamente as ideias dos socialistas democráticos, a maioria deles foi chamada de "extremista" e "socialista" nas propagandas eleitorais dos Republicanos.

O jornalista Jonathan Chait, da revista The Atlantic, estudou o DSA em profundidade e explica que o crescimento da popularidade do movimento está ligado à insatisfação dos eleitores democratas com a situação atual dos EUA.

"Os eleitores democratas veem Trump agir sem limites, desrespeitando seus valores, a Constituição e as leis. Eles culpam Trump, mas também responsabilizam os democratas, que estão sem poder, por não conseguirem exercer nenhuma influência."

"O DSA tem aproveitado essa insatisfação em muitas disputas eleitorais. Basicamente, o movimento argumenta que a cúpula do Partido Democrata não está fazendo nada e, por isso, pede votos para seus candidatos. Promete agir, e esse discurso tem funcionado em algumas dessas disputas."

Segundo Siddique, do DSA, nas conversas que costuma ter com as pessoas comuns, o socialismo raramente é motivo de preocupação. "O mais comum não é o medo do socialismo, mas a pergunta: 'Tudo bem, mas como vocês vão pagar por isso?'"

"Nossa resposta é simples: podemos financiar essas medidas cobrando mais impostos dos mais ricos, que recebem bilhões de dólares em benefícios fiscais. Também podemos reduzir o orçamento militar. Não precisamos gastar tanto com isso. Esses gastos não nos tornam mais seguros."

Divisão entre os democratas

Darializa Ávila fala ao megafone durante um evento.
Legenda da foto, A expectativa é que Darializa Ávila Chevalier seja eleita para a Câmara dos Representantes como integrante do DSA

Enquanto alguns integrantes do Partido Democrata veem o movimento com preocupação, outros avaliam que os candidatos do DSA poderão adotar posições mais moderadas à medida que suas propostas ganhem visibilidade.

Além disso, consideram que a capacidade do movimento de mobilizar os eleitores jovens é algo de que o Partido Democrata precisa atualmente.

Um exemplo é a campanha de Darializa Ávila Chevalier, organizadora política de origem dominicana e americana, candidata à Câmara dos Representantes pelo 13º distrito eleitoral de Nova York, que abrange o norte de Manhattan e partes do Bronx.

"Durante a minha campanha, batemos à porta de mais de 155 mil casas, e todo o trabalho foi feito por voluntários", disse Ávila Chevalier à BBC News Mundo.

Com candidatos jovens e uma presença forte nas redes sociais, o DSA conta com uma base de eleitores jovens que não se limita a votar: eles participam do debate político e trabalham para ajudar seus candidatos a vencer as eleições. Essa mobilização foi fundamental para que Ávila Chevalier derrotasse Adriano Espaillat, deputado democrata veterano que representava seu distrito.

Darializa Ávila com integrantes do sindicato dos trabalhadores da indústria automobilística.
Legenda da foto, As campanhas do DSA contam com um grande apoio de voluntários jovens e entusiasmados

Mas, assim como aconteceu com Alexandria Ocasio-Cortez quando lançou sua campanha, Ávila Chevalier se tornou alvo de ataques do Partido Republicano, da imprensa de direita e do próprio presidente Trump por posições que defendeu no passado.

No caso de Ávila Chevalier, publicações feitas nas redes sociais quando ela atuava como ativista política em Nova York, e que foram apagadas após o fechamento de sua conta na rede social X, antigo Twitter, em 2022, têm sido usadas contra ela durante a campanha.

Algumas das mensagens continham insultos a líderes democratas, como o ex-presidente Joe Biden e a ex-vice-presidente Kamala Harris, teorias da conspiração sobre a origem da covid-19 e propostas de extinção da polícia e do sistema prisional.

Ávila Chevalier disse à BBC News Mundo que, nas conversas sobre o assunto, seus eleitores demonstraram compreender que as mensagens foram escritas quando ela era mais jovem.

"Eles também entendem que, no fundo, o que eu tentava dizer, mesmo que tenha me expressado mal, de maneira imatura ou como quer que seja, estava de acordo com a ideia de que todo ser humano merece ser tratado com dignidade. E esse sempre foi o princípio fundamental da minha visão política."

Para Chait, da revista The Atlantic, declarações como as de Ávila Chevalier são interessantes porque não significam necessariamente que ela tenha mudado suas convicções.

Alexandria Ocasio-Cortez no início de seu mandato no Congresso dos EUA, em 2018.
Legenda da foto, Alexandria Ocasio-Cortez foi alvo de ataques da imprensa de direita dos EUA ao assumir seu mandato como deputada, em 2018

"Eles não vão abrir mão dessas ideias. Simplesmente dizem: 'Não é isso que estou defendendo na minha campanha. É uma tentativa de desviar a atenção. Querem discutir esse assunto em vez de outros'. Assim, conseguem manter suas convicções e algumas de suas alianças mais radicais sem prejudicar o próprio futuro político", afirma Chait.

"É possível que, com o tempo, abandonem essas posições. Mas também é fácil interpretar esse discurso como uma estratégia comum entre radicais dos dois extremos do espectro político: entrar na política tradicional escondendo suas posições mais radicais, sem realmente abandoná-las, enquanto esperam o momento oportuno para colocá-las em prática", acrescenta.

O cenário eleitoral

As quatro deputadas que formaram originalmente o grupo conhecido como "Esquadrão": Rashida Tlaib (Michigan), Alexandria Ocasio-Cortez (Nova York), Ayanna Pressley (Massachusetts) e Ilhan Omar (Minnesota), todas do Partido Democrata.
Legenda da foto, A expectativa é que o grupo de deputados ligados ao DSA na Câmara dos Representantes aumente para sete nesta eleição

Nas eleições desta terça-feira, os Socialistas Democráticos dos Estados Unidos esperam ampliar para sete o número de deputados apoiados pela organização, incluindo a reeleição de Alexandria Ocasio-Cortez e Rashida Tlaib, que concorre na região metropolitana de Detroit.

O movimento também considera praticamente certas as vitórias de Chris Rabb, na Filadélfia, Melat Kiros, em Denver, Donavan McKinney, em Detroit, e Claire Valdez e Darializa Ávila Chevalier, em Nova York. Isso porque os candidatos disputam eleições em distritos que tradicionalmente votam no Partido Democrata.

Segundo Kamarck, do Brookings, esse número de representantes não seria suficiente para influenciar as decisões de uma câmara. Isso porque os integrantes do DSA ainda não conquistaram vagas nas comissões do Congresso.

Kamarck também duvida que as propostas do movimento consigam apoio no Congresso, "mesmo que seus candidatos vençam".

Urnas de votação nos Estados Unidos.
Legenda da foto, Os DSA esperam lançar um candidato à Presidência em 2028

No entanto, analistas democratas, como James Carville, ex-assessor da campanha presidencial de Bill Clinton, alertam que o grupo de deputados socialistas poderia deixar a maioria democrata "refém" de seus interesses caso a diferença de cadeiras entre os partidos seja muito pequena.

"Se os democratas conquistarem a Câmara por uma margem menor do que o número de deputados alinhados ao DSA, esse grupo poderá ter força suficiente para manter a maioria democrata refém de suas exigências", explicou Chait, da revista The Atlantic, à BBC News Mundo.

"Eles poderiam dizer: 'Não vamos votar no candidato de vocês à Presidência da Câmara a menos que aceitem esta lista de exigências'. Isso poderia provocar uma divisão na bancada democrata."

"Se os democratas conquistarem uma maioria maior do que o número de integrantes do DSA, não precisarão do apoio deles para controlar a Câmara dos Representantes. Nesse caso, a influência do movimento seria muito menor durante o mandato."

Chait também explicou que os objetivos do DSA não se limitam necessariamente ao curto prazo. Eles podem fazer parte de uma estratégia de longo prazo, cujos resultados apareçam com o tempo.

Isso não significa que o movimento deixará de tentar ampliar sua influência nos próximos anos, inclusive com a possibilidade de lançar uma candidatura à Presidência.

Ávila Chevalier disse à BBC News Mundo qual seria, para ela, o cenário ideal no Congresso nos próximos anos: "Se conseguirmos acabar com o genocídio [em Gaza], garantir moradia digna aos moradores de habitações públicas aqui em Nova York, reduzir o percentual de crianças que vivem na pobreza neste distrito, extinguir o ICE [Serviço de Imigração e Controle de Aduanas] e eleger um presidente socialista, considerarei isso uma grande conquista."