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Ameaça militar de Trump na ONU pressiona América Latina às vésperas das eleições brasileiras

Crédito, Reuters
- Author, Leandro Prazeres
- Role, Da BBC News Brasil em Brasília
- Published
- Tempo de leitura: 6 min
O discurso do presidente Donald Trump na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) mostrou um aumento do foco do governo norte-americano sobre a América Latina às vésperas da eleição tida por analistas como a mais decisiva para o futuro da região nos últimos anos: a brasileira.
O Brasil é visto por Washington como um país não alinhado ao governo Trump.
Auxiliares do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) avaliam que os norte-americanos gostariam de ver o país governado por um nome mais amistoso ao governo Trump, como o senador e candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL).
A avaliação da professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Carol Pedroso, e de três diplomatas brasileiros ouvidos em caráter reservado é de que o foco de Trump sobre a América Latina atinge o Brasil, ainda que o país não tenha sido citado diretamente.
Segundo eles, Trump teria reforçado o recado aos países ainda não-alinhados ao governo norte-americano de que seu governo se mantém disposto a usar até mesmo a força militar para manter e ampliar sua influência na região.
"Ao vencedor, o espólio. Vocês já ouviram falar que nossas ações na Venezuela são a prova que os Estados Unidos não vão mais permitir que ameaças à América ganhem terreno em qualquer ponto do Hemisfério Ocidental. Se necessário, usaremos todo o nosso poderio militar inigualável para assegurar os interesses vitais dos Estados Unidos", disse Trump mencionando a ação militar dos EUA que capturou o então presidente venezuelano Nicolás Maduro, em janeiro deste ano.
Carol Pedroso avalia que mesmo sem citar o Brasil, o foco de Trump na América Latina, especialmente ao tratar do combate ao crime organizado, acaba colocando o Brasil na berlinda e que o assunto poderá ser mobilizado durante a reta final das eleições.
Trump defendeu a sua decisão de classificar facções criminosas latino-americanas como organizações terroristas e citou, nominalmente, os carteis de drogas do México e o grupo Tren de Arágua, da Venezuela.
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Esse processo começou ainda em 2025, logo que assumiu seu segundo mandato.
Em maio deste ano, o governo Trump fez o mesmo com o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), contrariando o governo Lula e atendendo a um pleito de Flávio Bolsonaro.
"O recado dado para a América Latina inevitavelmente também se aplica a nós, após a classificação do CV e PCC como organizações narcoterroristas. Foi uma forma indireta de endereçar ao Brasil um tema que deve movimentar a agenda hemisférica daqui para a frente e que pode ser usado nessa conjuntura eleitoral contra Lula, favorecendo a candidatura de Flávio Bolsonaro", diz a professora.
Um auxiliar do presidente Lula minimizou as menções de Trump à América Latina e disse não ver recados diretos ao Brasil.
Falando à BBC News Brasil em caráter reservado, ele disse que Trump teria apenas repetido a retórica usada por ele ao falar do chamado Escudo das Américas.
A iniciativa é uma aliança política de 15 países liderada pelos EUA e composta por nações latino-americanas e caribenhas governadas por líderes de direita e centro-direita focada no combate ao crime organizado. O Brasil não faz parte da aliança.
Nesta terça-feira, o grupo divulgou um comunicado conjunto defendendo medidas articuladas de combate a organizações criminosas da América Latina e pedindo a convocação de uma reunião de ministros dos países que fazem parte da Organização dos Estados Americanos (OEA) sobre o assunto.
Entre as organizações citadas no documento estão o PCC e o CV.
Um diplomata brasileiro ouvido em caráter reservado pela BBC News Brasil diz, por sua vez, que Trump teria enviado dois recados principais à região durante sua passagem pela ONU.
O primeiro seria o de que os EUA pretendem ampliar sua influência na região e aliados tradicionais de países não alinhados como a China e a Rússia não teriam condições de impedir o ímpeto norte-americano.
Essa "lição" teria ficado ainda mais clara após a ação militar dos EUA que tirou Maduro do poder e que não foi respondida econômica e militarmente pelos governos russo e chinês, que antes davam suporte ao ex-ditador venezuelano.
A percepção de que o Brasil não seria um país alinhado aos EUA foi expressa por Rubio em junho deste ano. Em pronunciamento ao Congresso norte-americano, ele incluiu o Brasil em um grupo de países não "amigáveis" aos Estados Unidos que inclui Cuba, Nicarágua e Venezuela.
O segundo recado, segundo o diplomata ouvido pela BBC News Brasil, foi endereçado à base eleitoral republicana indicando que o governo Trump estaria cumprindo sua promessa de aumentar sua força na América Latina.
Ele lembra que tudo isso acontece, também, a pouco mais de dois meses das eleições parlamentares de meio de mandato nos Estados Unidos, que vai definir se o Partido Republicano, de Trump, terá ou não o comando do Congresso nos próximos dois anos e meio.

Crédito, Reuters
Contraste entre Lula e Trump
A ameaça de uso da força militar na América Latina feita por Trump contrasta com o discurso de Lula na ONU.
Repetindo motes usados por ele em pronunciamentos recentes, Lula rechaçou a ideia de que a América Latina possa ser vista como um "quintal" dos Estados Unidos.
"Na América Latina e no Caribe, a proximidade com a maior potência militar do mundo é inescapável. Sobretudo no contexto de recrudescimento de tentações hegemônicas. O Brasil não cabe no quintal de ninguém", disse Lula.
O presidente também criticou uma suposta tentativa de interferências estrangeiras em eleições na região.
"A democracia está novamente em xeque. Voltamos a presenciar a ingerência externa em processos eleitorais. A divisão do mundo em zonas de influência e investidas neocoloniais por recursos estratégicos constituem gestos anacrônicos", disse Lula.
A fala, ainda que sem mencionar Trump ou os EUA, reflete um tema já abordado por Lula anteriormente.
Na semana passada, em discurso no Paraná, Lula citou Trump nominalmente.
"O Trump sabe que eu já falei para ele: não se meta na eleição do Brasil. Esse país não é um vira-lata e nem uma republiqueta de banana. Esse país tem 215 milhões de homens e mulheres que têm orgulho. É a eleição brasileira. Aqui, ninguém vai se meter. E se se meter, vão perder as eleições".
As falas de Lula ecoam uma preocupação que circula entre seus auxiliares de que os EUA estariam, diretamente e indiretamente, tentando influenciar os rumos das eleições no Brasil para favorecer Flávio Bolsonaro, visto como mais alinhado a Trump.
Um dos exemplos disso seria a publicação, na semana passada, de um relatório do Departamento de Estado, em que o Brasil é criticado por supostamente ter falhado no combate ao crescimento do crime organizado no país.
Ainda na semana passada, o jornal Folha de S.Paulo publicou que a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) teria elaborado um relatório citando um aumento da pressão dos EUA sobre o processo eleitoral brasileiro.
Sai China, entra América Latina
A mudança de foco no discurso de Trump sobre a América Latina pode ser medida em números. Em 2025, as menções do norte-americano à região ocuparam 6% do seu discurso.
Na época, ele retornava ao púlpito da ONU pela primeira vez em seu segundo mandato. Em 2026, as menções à região chegaram a 13%.
Por outro lado, a China, que tinha sido citada oito vezes em 2025, foi citada apenas uma.
Um diplomata ouvido pela BBC News Brasil diz que essa mudança teve pelo menos três motivos.
O primeiro é o fato de que, na média, a política externa de Trump, marcada pela guerra tarifária com países como a China, seria mal avaliada pelo público norte-americano. Por isso, menções à China depois de o país asiático ter resistido e imposto derrotas a Trump, não seria prudente.
Ao mesmo tempo, ainda no campo da política externa, a agenda norte-americana na América Latina seria uma das únicas entregas positivas do governo nesse campo.
Desde que assumiu o poder novamente, Trump conseguiu reduzir o fluxo de imigrantes pela fronteira com o México, trocou o comando da Venezuela e implementou um cerco ainda mais acirrado sobre o regime cubano.
Este diplomata avalia ainda que essas "conquistas" também têm um peso eleitoral para parte da base republicana, especialmente para o eleitorado latino.
O terceiro motivo seria uma tentativa de Trump de abrir mais espaço para agenda capitaneada por seu secretário de Estado, Marco Rubio.
Ele, que é descendente de cubanos, tem uma atuação política marcada pelo foco na América Latina e é visto como um dos possíveis sucessores de Trump nas eleições de 2028.
Isso explicaria, segundo o diplomata, a ênfase dada por Trump à atuação de Rubio na questão cubana.
O país vive sob embargo comercial norte-americano desde os anos 1960, mas, nos últimos dois anos, o governo Trump restringiu o acesso do país a combustíveis, o que agravou a crise energética do país.

























