'Não conseguia aceitar que nunca encontrariam minha amiga desaparecida, então fui para o outro lado do planeta procurá-la'

Crédito, Acervo pessoal/Justine Ropet
- Author, Sandrine Lungumbu
- Role, BBC World Service
- Published
- Tempo de leitura: 7 min
Durante quase três anos, Justine "acordava e ia dormir com as mesmas perguntas".
Neste ano, ela finalmente obteve algumas das respostas sobre o que aconteceu com sua amiga de infância Céline Cremer.
"Céline estava sempre nos meus pensamentos, e eu me perguntava o tempo todo por que, se ela estava naquela [floresta], não conseguíamos encontrá-la", diz a instrutora de mergulho de 33 anos.
A mochileira belga Céline Cremer foi vista com vida pela última vez em Waratah, cidade no noroeste da ilha australiana da Tasmânia, em 17 de junho de 2023.
Céline havia saído para fazer uma trilha em uma floresta tropical rumo a um ponto turístico da região, as pitorescas cachoeiras Philosopher Falls (Cachoeira do Filósofo, em tradução livre). Depois de duas semanas sem dar notícias a amigos e familiares, eles procuraram as autoridades.
A polícia encontrou o carro de Céline no início da trilha que leva às cachoeiras.
As buscas por terra e pelo ar, com drones, helicópteros e equipes em solo, prosseguiram por meses, mas não encontraram nenhum indício.
'Minha melhor amiga desde sempre'

Crédito, Acervo pessoal/Justine Ropet
A motivação de Justine para encontrar Céline sempre foi a amizade entre as duas, que já dura mais de três décadas.
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"Ela é, literalmente, minha melhor amiga desde sempre. Faz parte da minha família e é, talvez, uma extensão de mim mesma", diz Justine à BBC.
As duas se conheceram na pré-escola onde a mãe de Justine dava aulas, em Trasenster, um pequeno vilarejo no leste da Bélgica. A infância delas foi marcada por atividades ao ar livre e por sonhos sobre o mundo além dali.
"[Desde] muito pequenas, fazíamos muitas coisas juntas: andávamos a cavalo, esquiávamos e dançávamos", contou Justine.
"Sempre quisemos viajar, morar em um lugar ensolarado e trabalhar duro."
Quando recebeu a notícia de que Céline havia desaparecido, para Justine só havia uma coisa a fazer: reservar uma passagem e percorrer mais de 17 mil km para encontrar a amiga.
As duas atravessaram juntas os altos e baixos da vida — desilusões amorosas, a escola, mudanças de cidade, de país e até de continente. Ainda assim, a amizade permaneceu inabalável.
"Nós nos entendíamos apenas pelo olhar", disse Justine. "Acho que a conexão que tínhamos era muito intensa e muito bonita.
As últimas palavras

Crédito, Acervo pessoal/Justine Ropet
Céline deixou a Austrália para trabalhar e viajar em junho de 2022. Justine tinha planejado se juntar a ela de surpresa em outubro de 2023.
Em 13 de junho de 2023, no que seria a última troca de mensagens entre elas, Justine desejou a Céline um feliz aniversário.
"Ela me respondeu dizendo que estava aproveitando muito e que ela explicaria em detalhes mais tarde, porque ela estava viajando e queria pegar a estrada antes de escurecer", relembra Justine. "E essa foi a última vez que ouvi dela."
"Depois de alguns dias, eu agendei minhas passagens aéreas para me juntar a ela na Austrália. Estava muito animada para contar a ela."
Mas Céline não respondeu por dias, o que levou Justine a contatar um amigo em comum em Sydney, capital australiana.
Ela ouviu dele que não era para entrar em pânico porque havia diversos lugares na Tasmânia onde o sinal de celular não funcionava.
Mas após duas semanas sem notícias, eles registraram o desaparecimento na polícia.
As buscas

Crédito, Polícia da Tasmânia
Em julho de 2023, Justine chegou à Tasmânia, onde ela se juntou aos esforços de busca da polícia, trazendo o maior número possível de pessoas para ajudar.
"Tentei fazer o máximo de conexões possível para achar pessoas que pudessem me ajudar nas buscas por Céline", conta.
As buscas iniciais da polícia não duraram muito. Foram suspensas depois de duas semanas, seguindo avaliação médica de que Céline não poderia ter sobrevivido às duras condições climáticas desde o seu desaparecimento.
"Eu não podia aceitar que minha amiga nunca seria encontrada porque precisava saber [o que tinha acontecido] para conseguir lidar com meu luto. O mesmo se dava com a família de Céline", diz Justine.
Ela retornou para a Bélgica, mas não pôde deixar as buscas para trás. Em janeiro de 2024, se mudou para a Tasmânia e passou os seis meses seguintes buscando qualquer sinal de sua amiga.
Mas nada foi encontrado. Justine admitia que estava "psicologicamente exausta" e próxima da depressão.
Ela falou com o amigo Gabriel Remy, que assumiu a liderança e entrou em contato com todas as pessoas que se envolveram nas buscas desde o início.
Antes de voltar para a Bélgica, Justine contatou o investigador particular Ken Gamble, que assumiu o caso de Céline sem cobrar por seus serviços. Gamble formou uma equipe com habilidades diversas.
Em dezembro do ano passado, a equipe iniciou uma nova busca independente da polícia. Essa operação os levou a achar o telefone celular de Céline, uma descoberta que levou a polícia de volta às buscas.
'Quero continuar viajando por nós'

Crédito, Acervo pessoal/Justine Ropet
A descoberta parece ter confirmado o que há muito se suspeitava: Céline nunca conseguiu sair da floresta. Mas ainda há questões em aberto.
Em janeiro, uma pessoa que faz trilhas pelo local e que havia se voluntariado nas buscas encontrou vestígios que pareciam ser de Céline (um osso de maxilar).
O achado impulsionou novas buscas. No mês seguinte, foram encontrados em um rio nas proximidades outros cinco ossos, dois dentes e chaves de carro.
A polícia da Tasmânia acredita que Céline se perdeu na densa floresta e não suspeita de crime.
"Nós acreditamos que ela dirigiu até Philosopher Falls, estacionou seu carro e saiu no que achava ser uma breve caminhada. Infelizmente, ela não retornou", afirma o inspetor Andrew Hanson, que liderou as buscas mais recentes.
"Dados do celular, assim como sua localização, dão suporte à teoria de que Céline pode ter escolhido, usando um aplicativo de seu telefone, deixar a trilha de Philosopher Falls para fazer uma rota mais direta até seu carro, já que a tarde estava caindo", diz Hanson.
"Nós suspeitamos que ela deixou cair o celular e prosseguiu sem ele, mas acabou desorientada pelo terreno denso."

Crédito, Acervo pessoal/Justine Ropet
Seus restos mortais foram enviados para a família, e Céline foi enterrada na Bélgica em maio, depois de uma identificação formal dos vestígios encontrados.
"Foi um momento incrivelmente difícil, mas necessário. Acho que nos ajudou a finalmente nos dar conta da realidade da morte de Céline, e foi um passo importante no meu processo de luto", afirma Justine.
Nos meses seguintes ao funeral de Céline, Justine diz que vivenciou uma onda de emoções, incluindo gratidão a todos os voluntários.
"Alguns nomes foram divulgados pela imprensa, mas muito mais pessoas participaram, e acredito que todas elas são importantes, com uma grande variedade de habilidades", afirma ela.
A esperança de Justine é que a morte de Céline conscientize outros trilheiros e viajantes a tomarem medidas adicionais para garantir sua segurança e manter-se acessíveis para contato.
"Céline era uma pessoa muito cuidadosa e inteligente. Com todas as informações que temos agora, sabemos que ela fez tudo o que pôde para tentar sobreviver na natureza", diz Justine.
Em junho, Justine foi à Espanha para marcar o que seria o 34º aniversário de Céline, e planeja conhecer o mundo, tal como as duas haviam conversado quando crianças.
Por onde quer que vá, ela leva uma pedra em formato de coração rosa como uma lembrança constante de Céline.
"Eu definitivamente quero continuar viajando por ela, por nós", conclui Justine.



























