O outro ‘Caminho de Santiago’ da Espanha que poucos peregrinos conhecem

O outro 'Caminho de Santiago' fica na ilha de Gran Canária, no Oceano Atlântico

Crédito,

Legenda da foto, O outro 'Caminho de Santiago' fica na ilha de Gran Canária, no Oceano Atlântico
    • Author, Matthew Hirtes
    • Role, Da BBC Travel
  • Published

Todo o mundo já deve ter ouvido falar do Caminho de Santiago, a rota de peregrinação que leva à Catedral de Santiago de Compostela, onde se acredita estarem os restos mortais do apóstolo São Tiago.

Mas talvez seja uma surpresa a informação de que há um outro Caminho de Santiago a 1.750 quilômetros dali, na ilha de Gran Canária, no Oceano Atlântico.

Essa rota é tão desconhecida que até as pessoas da ilha não conseguiam me dar mais informações. Os detalhes oferecidos pela agência de turismo oficial local se mostraram incompletos. Um casal de franceses nunca tinha ouvido falar da trilha, e um morador local sugeriu que eu caminhasse ao longo da estrada principal. Mas eu estava determinado a acabar o que comecei.

No vilarejo de Artenara, alguns moradores ainda vivem em casas montadas em cavernas

Crédito, Alamy

Legenda da foto, No vilarejo de Artenara, alguns moradores ainda vivem em casas montadas em cavernas

O famoso Caminho de Santiago era algo que estava na minha lista há anos. Como um praticante de longas caminhadas, queria encarar o desafio. Mas aí descobri que apenas 1% da rota passa por trilhas e que o resto é formado por ruas e estradas asfaltadas. Isso sem falar nos 300 mil peregrinos que completam o caminho a cada ano.

Eu estava em busca de uma peregrinação menos cheia e mais espiritual – e foi assim que descobri o segundo Caminho de Santiago, onde 99% da rota é de trilhas e apenas um punhado de pessoas percorre por ano.

A rota em Gran Canária historicamente liga as duas maiores igrejas dedicadas a São Tiago na ilha: uma no vilarejo de Tunte, no centro-sul do território, e outra no povoado de Gáldar, no noroeste.

Em 2011, a trilha foi estendida para o sul para criar um passagem de costa a costa através do exuberante interior da ilha.

  • <bold><link type="page"><caption> Leia também: Imperfeitas e convincentes: como são as novas super-heroínas de Hollywood</caption><url href="http://www.bbc.com/portuguese/revista/vert_cul/2016/03/160315_vert_cul_super_heroinas_ml.shtml" platform="highweb"/></link></bold>
  • <bold>Siga a BBC Brasil no <link type="page"><caption> Facebook</caption><url href="https://www.facebook.com/bbcbrasil" platform="highweb"/></link> e no <link type="page"><caption> Twitter</caption><url href="https://twitter.com/bbcbrasil" platform="highweb"/></link></bold>

De uma igreja a outra

Uma das igrejas dedicadas a São Tiago fica na cidade de Gáltar

Crédito, Cristian BortesFlickrCC BY 2.0

Legenda da foto, Uma das igrejas dedicadas a São Tiago fica na cidade de Gáltar

Gran Canária foi colonizada pelos espanhóis no século 15, quando os monarcas católicos Fernando de Aragão e Isabel de Castilha tentavam expadir o país recém-unificado.

Os conquistadores construíram uma igreja dedicada a São Tiago (santo padroeiro do país) em Gáldar – o primeiro templo jacobino construído fora da Espanha continental.

Diz a lenda que, no século 16, marinheiros galegos encalharam na costa de Arguineguín, no sudoeste da ilha. Para agradecer o fato de terem chegado em terra sãos e salvos, eles trouxeram uma imagem de São Tiago, que acabou indo parar na igreja de Tunte em 1850.

Logo depois começaram as peregrinações entre uma igreja e a outra, em geral por moradores que esperavam um milagre ou aqueles que deviam cumprir uma promessa.

  • <bold><link type="page"><caption> Leia também: No Brasil da recessão, aumenta desemprego entre engenheiros e sobram vagas para diaristas</caption><url href="http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/03/160303_crise_diaristas_engenheiros_ru_ab" platform="highweb"/></link></bold>

Três dias de caminhada

O atual Caminho de Santiago nas Canárias (também chamado de Rota Jacobina) é uma rota de 76,9 quilômetros e três etapas de caminhada, percorridos em três dias. Ele começa na Oficina de Turismo de Maspalomas que, curiosamente, não fica no resort de Maspalomas, mas sim na vizinha Playa del Inglés.

Ali, em meio a uma espalhafatosa rua de estúdios de piercing e tatuagem, encontrei a primeira placa indicativa da rota.

Mais por sorte do que por qualquer outra coisa, acabei tomando a segunda rota sugerida nesta primeira etapa da caminhada, atravessando a Degollada de Garito, uma ladeira íngreme entre desfiladeiros.

Passei pela fantasmagórica Arteara Necropolis, antigo cemitério da população nativa das Canárias, antes da ocupação espanhola no século 15. Sozinho e apequenado pelas encostas vulcânicas que surgiam ao meu redor, senti-me humilde diante da força da natureza.

A Gran Canária é elogiada por sua luz natural, mas o sol se põe rapidamente por aqui. Às 19h, montei acampamento em um pomar perto do vilarejo de Fataga.

  • <bold><link type="page"><caption> Leia também: Melhor surfista do Brasil descreve luta por patrocínio: 'Não sou modelinho, sou profissional'</caption><url href="http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/02/160229_silvanalima_surf_rs.shtml" platform="highweb"/></link></bold>

Natureza e solidão

No dia seguinte, consegui chegar a Tunte, onde o Caminho original começou. Dediquei alguns momentos à igreja construída no fim do século 17 sobre o antigo convento de São Bartolomeu.

A próxima etapa da rota é uma subida de 18,8 quilômetros em direção ao coração da ilha. Apesar de minha mochila parecer mais pesada a cada passo, senti mais ânimo quando cheguei a uma clareira à beira de uma floresta de pinheiros.

Dali, eu podia ver claramente a formação rochosa Roque Bentayga, com a ponta do Monte Teide por trás. Em meio a tanto cansaço, a vista parecia um presente divino.

Apesar de o ar da montanha ser mais puro, fazia mais frio do que no dia anterior. A enorme variedade de climas e paisagens da ilha me ajudaram a entender por que ela é chamada de “continente em miniatura”.

A terceira etapa, de Cruz de Tejada a Gáldar, é a mais fácil e atravessa 1.548 metros de florestas e pastagens. A maior dificuldade é a falta de sinalização, então acabei tendo que percorrer alguns trechos duas vezes.

Passei por Artenara, o vilarejo mais alto da ilha e onde muitos moradores ainda vivem em casas cravadas em cavernas, e por Pinos de Gáldar, um mirante famoso por proporcionar uma vista incrível acima das nuvens.

Chegando a Gáldar, notei como a paisagem muda, dando lugar a plantações de banana. A igreja de Santiago de los Caballeros fica em uma das praças mais bonitas de Gran Canária.

Ao adentrar a calma e a paz do templo, avistei a fonte na qual os espanhóis batizaram os nativos canários que se converteram ao Cristianismo.

A caminhada acabou. Sentei-me para descansar e refletir sobre minha peregrinação. Minha vontade agora é de voltar a Gran Canária para explorar suas outras paragens. E quem sabe até fazer o Caminho novamente, desta vez de norte a sul.

  • <bold><link type="page"><caption> Leia também: Sem gelo, com uma gota d'água: como se bebe uísque em ilha escocesa com 8 destilarias</caption><url href="http://www.bbc.com/portuguese/revista/vert_tra/2016/03/160224_vert_tra_uisque_gelo_escocia_fd.shtml" platform="highweb"/></link></bold>
  • <bold><link type="page"><caption> Leia também: O que significa ter uma vida sexual 'normal'?</caption><url href="http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/02/160221_vert_fut_sexo_normal_ml.shtml" platform="highweb"/></link></bold>
  • <bold><italic>Leia a <link type="page"><caption> versão original</caption><url href="http://www.bbc.com/travel/story/20160229-the-camino-that-no-one-knows" platform="highweb"/></link> desta reportagem (em inglês) no site <link type="page"><caption> BBC Travel</caption><url href="http://www.bbc.com/travel" platform="highweb"/></link>.</italic></bold>