A caneta emagrecedora 'pirata' que brasileiros se arriscam comprando no Paraguai: 'Tenho mais medo da gordura'

Mulher foi pega tentando cruzar fronteira Brasil-Paraguai é autuada popr agente da receita

Crédito, Fernando Otto/BBC

Legenda da foto, Mulher foi pega tentando cruzar fronteira Brasil-Paraguai com medicamento retatrutida

Quando a agente da Receita Federal na fronteira entre o Brasil e o Paraguai sinalizou ao mototaxista que parasse, o nervosismo de Mariane, na garupa, já chamava atenção.

Suando e com as costas curvadas, a advogada de 42 anos explicava na Alfândega de Foz do Iguaçu, no Paraná, que só tinha comprado no país vizinho um pote grande de Nutella. Ela estava mentindo.

Por trás de um casaco roxo amarrado na cintura, colado com fitas adesivas no seu cóccix, estavam sete canetas emagrecedoras escondidas.

A embalagem apontava serem de retatrutida, uma molécula experimental em fase de testes que ainda não foi aprovada para uso humano ou para ser vendida em lugar nenhum no mundo.

Mas produtos que dizem ter o novo medicamento já são vendidos livremente no Paraguai, de onde são trazidos em grandes quantidades para o Brasil. Também é fácil encontrar formas de comprar pelas redes sociais.

"Tenho mais medo da gordura do que de aplicar esse medicamento em mim", afirmou Mariane à BBC News Brasil ao ser flagrada com o produto. Seu nome real foi preservado nesta reportagem.

A advogada conta que começou a usar canetas do Paraguai há seis meses e que já conseguiu perder mais de 20 kg.

Ela diz que comprava de um vendedor que conheceu nas redes sociais e que entregava em sua casa, em São Paulo, mas resolveu ir por conta própria pela primeira vez ao Paraguai. Assim, conseguiria economizar mais de R$ 300 por unidade.

"Com o preço no Brasil, eu não consigo manter meu tratamento. Agora, vou ver o que fazer", disse Mariane, antes de ser autuada pela Receita e liberada para fazer o caminho de volta à capital paulista.

A retratutida ainda está sendo desenvolvida pela farmacêutica americana Eli Lilly, criadora e detentora da patente do produto. A expectativa em torno dela é grande, porque os testes iniciais mostraram um potencial de promover um emagrecimento ainda mais rápido do que as canetas campeãs de venda desse mercado, de semaglutida (Ozempic) e de tirzepatida (Mounjaro).

Não há previsão da empresa sobre quando o produto vai chegar de fato ao mercado.

Caneta retatrutida

Crédito, Fernando Otto/BBC

Legenda da foto, Farmacêutica que desenvolve a retatrutida nem começou a comercializar o produto, mas versões "piratas" já são usadas por brasileiros

Na Alfândega de Foz do Iguaçu, porém, há apreensões diárias de "retatrutida" feitas pelos agentes da Receita Federal e da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Elas se somam às apreensões de vários tipos de canetas e ampolas de medicamentos emagrecedores com outros princípios ativos — especialmente, a tirzepatida—, que também são proibidas pela Anvisa de entrar no Brasil.

Nos três primeiros meses de 2026, as apreensões de canetas emagrecedoras já superam, em valor, todo o ano de 2025 no Paraná, Estado onde as autoridades brasileiras realizaram o maior número de operações para tentar conter a entrada ilegal destes medicamentos no país. Foram mais de R$ 11 milhões em apreensões em três meses do ano.

Também há número relevante de apreensões em São Paulo e Mato Grosso do Sul, que também faz fronteira com o Paraguai.

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Em Foz do Iguaçu, as canetas já são o segundo produto mais apreendido do ano, depois do celular, segundo a Receita. E as canetas de retatrutida já equivalem a quase 10% do total de apreensões desse tipo de produto em todo o Paraná, segundo dados obtidos pela BBC News Brasil.

"A gente fica muito preocupado. É um produto totalmente irregular, e que a gente está percebendo que as pessoas falam muito disso no Brasil e nas redes sociais", diz Cláudio Marques, delegado-adjunto da Receita em Foz do Iguaçu.

A médica Carolina Janovsky, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia e coordenadora do serviço de obesidade da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), ressalta os riscos de usar esse medicamento.

"Ninguém sabe se teve controle sanitário correto, se a dose que diz é a que tem, se está contaminado, se tem outra substância misturada. Então, pode haver efeitos colaterais graves", diz Janovsky.

Em duas manhãs em que esteve acompanhando o trabalho da Receita Federal em Foz do Iguaçu, a BBC News Brasil flagrou três apreensões desses medicamentos — em duas, a retatrutida estava presente.

Cinco caixas deste medicamento foram flagradas dentro de uma sacola preta abandonada no chão de uma van que fazia transporte de passageiros entre Ciudad del Este e Foz. Ninguém que estava no veículo assumiu a princípio o contrabando.

"Isso é bem comum no caso de produtos como cigarros, medicamentos, anabolizantes. As pessoas descem do veículo, mas deixam o pacote para trás", explicou Caio Santana, auditor da Receita em Foz do Iguaçu, à reportagem durante a apreensão.

Como não foi identificado um dono, a responsabilidade recairia sobre o motorista e a dona da van. Os dois foram comunicados que o veículo seria apreendido.

"Esse é meu ganha-pão, nunca iria arriscar meu trabalho por conta de canetas", contou, chorando, a dona da van.

A situação só se acalmou quando um passageiro resolveu assumir a responsabilidade.

"Só porque fiquei com pena dela, mas não é minha", disse o jovem, que também teve dois celulares apreendidos. "Eu trago iPhones para vender, não vou mexer com canetas."

Em fase de testes

A retatrutida atua de forma semelhante à de outros medicamentos para emagrecer que são cada vez mais populares no Brasil, em um mercado que movimentou cerca de R$ 12 bilhões no ano passado, segundo a Close Up, consultoria que produz análises do mercado farmacêutico.

Essa molécula se liga a receptores-chave presentes no cérebro e no trato gastrointestinal envolvidos no metabolismo, diminuindo o apetite e desacelerando a digestão.

A diferença é que a retatrutida tem a capacidade de agir em três receptores hormonais, enquanto a semaglutida atua em único receptor e a tirzepatida, em dois.

A Eli Lilly diz que o medicamento vem apresentando bons resultados na terceira e última etapa de testes, feitos em larga escala para confirmar se realmente funciona e é seguro.

A farmacêutica diz que ele pode levar a uma perda de até 28,7% em cerca de 15 meses. Em comparação, a semaglutida chega a 15% e tirzepatida, em torno de 20%, segundo suas fabricantes.

Espera-se que os testes da retatrutida sejam concluídos neste ano. Se os resultados forem positivos, a empresa poderá iniciar o processo para comercializá-la.

À BBC News Brasil, a farmacêutica disse que não há previsão de lançamento comercial e que a molécula só está disponível apenas nos seus ensaios clínicos.

"Versões não originais de candidatos a medicamento da Lilly não foram testadas, não são regulamentadas e podem ser perigosas — em alguns casos, fatais", afirmou a empresa em nota, em que ressaltou ainda que as versões vendidas no Paraguai são "provenientes de fornecedores estrangeiros ilegais".

No galpão da receita em Foz, funcionários contabilizam centenas de caixas de retatrutida

Crédito, Fernando Otto/BBC

Legenda da foto, No galpão da receita em Foz, funcionários contabilizam centenas de caixas de retatrutida

Em um alerta emitido em junho de 2025, a Dinavisa, a "Anvisa paraguaia", esclareceu que os produtos vendidos atualmente como retatrutida também não são aprovados para uso geral ou venda no país.

"Esses produtos não têm registro sanitário e podem conter ingredientes não declarados ou substâncias perigosas para a saúde. Se você estiver utilizando algum desses produtos, interrompa o uso imediatamente", disse a agência.

O produto que mais tem sido comprado por brasileiros no Paraguai diz na embalagem ser de uma indústria farmacêutica com sede em Leipzig, na Alemanha. O endereço aponta para uma rua residencial da cidade.

A BBC News Brasil tentou contato por meio dos canais informados em diversos sites que dizem ser do laboratório, mas não obteve resposta.

O comércio livre no Paraguai

Fila de carros em Ciudad del Este em direção ao Brasil

Crédito, Fernando Otto/BBC

Legenda da foto, Fila de carros em Ciudad del Este em direção ao Brasil

Nas ruas da região central de Ciudad del Este, anúncios em português de canetas emagrecedoras estampam portas de farmácia, e ampolas infláveis gigantes dão boas-vindas aos brasileiros. Algumas lojas oferecem brindes a quem postar no Instagram contando que comprou o produto.

Uma atendente de farmácia disse à reportagem não haver qualquer restrição de quantidade para quem compra estas canetas — e que não era necessário apresentar receita médica, embora isso seja exigido oficialmente.

Quando questionada se não havia riscos de o produto ser apreendido ao tentar entrar no Brasil com ele, a orientação foi "esconder bem na mala".

Brasileiros pegos na fronteira costumam dizer que desconhecem as regras. Caroline, uma moradora de Foz do Iguaçu, tentava trazer quatro ampolas de tirzepatida quando foi parada pela Receita na Ponte da Amizade. Todas eram de uma marca proibida e foram apreendidas.

"A farmácia dizia que essa marca estava liberada", justificou à reportagem Caroline, que teve seu nome trocado nesta reportagem.

Em seis meses, ela contou, havia perdido mais de 40 kg usando os medicamentos paraguaios. "Nunca havia sido parada. Agora, vou me informar mais."

Além da retatrutida, a Anvisa atualmente também veta outras várias marcas de canetas e ampolas de tirzepatida vindas do Paraguai: Gluconex, Tirzedral, Lipoless, Lipoland, T.G e Tirzec.

Essas marcas foram proibidas pela Anvisa depois de a agência identificar que são vendidas amplamente pelas redes sociais no Brasil, o que é proibido para medicamentos sem regulamentação.

"São medicamentos sem registro sanitário, que não tiveram a qualidade, eficácia e segurança de uso avaliadas no Brasil", disse a Anvisa à BBC News Brasil.

As canetas que não foram expressamente vetadas pela agência podem ser trazidas do exterior, contanto que a pessoa tenha uma receita em seu nome e compre apenas o suficiente para três meses de tratamento, no máximo.

Mas a Anvisa alerta que "não tem como se pronunciar sobre a segurança de medicamentos que não estão registrados no Brasil".

Propagandas em farmácias de Ciudad del Este estimulam brasileiros a comprar canetas proibidas de entrar no Brasil

Crédito, Fernando Otto/BBC

Legenda da foto, Propagandas em farmácias de Ciudad del Este estimulam brasileiros a comprar canetas proibidas de entrar no Brasil

Os riscos do transporte clandestino

As canetas e ampolas apreendidas vêm escondidas das mais variadas formas, segundo auditores da Receita: dentro de embalagens de salgadinhos, fones de ouvido, garrafas térmicas — ou até mesmo em canos de escape de motos e motor de carros.

Essa forma de transporte coloca ainda mais em risco a saúde de quem usa o medicamento, ressalta a endocrinologista Carolina Janovsky.

Quando fechadas em embalagem, as canetas precisam ser armazenadas em ambiente refrigerado, entre 4ºC e 9ºC. "Quando está em um ambiente quente, teoricamente, ela estraga", diz Janovsky.

"O risco não é só perder efeito. Se a caneta estiver contaminada, quando esquenta, você está fazendo um meio de cultura de bactérias. E aí você vai injetar direto no seu corpo, o que pode levar a complicações graves."

Casos de pessoas que tiveram problemas de saúde sérios e até mesmo morreram depois de usar canetas emagrecedoras do Paraguai foram noticiados nos últimos meses.

O delegado da Polícia Federal de Foz do Iguaçu, Emerson Rodrigues, diz que as canetas são a "bola da vez" no contrabando vindo do Paraguai.

"A gente já viu isso com os cigarros paraguaios, depois o cigarro eletrônico, anabolizantes", conta. Rodrigues avalia que a febre em busca de canetas paraguaias só deve arrefecer caso o preço desse tipo de produto diminua no Brasil.

Hoje, o Mounjaro, única marca com venda permitida no Brasil de tirzepatida, custa a partir de R$ 1,5 mil nas principais farmácias, na dose mais baixa e com desconto oferecido pelo laboratório.

No Paraguai, é possível encontrar canetas vendidas como "similares" por R$ 300. As ampolas, que são aplicadas por meio de uma seringa, saem ainda mais baratas, a partir de R$ 35.

No Brasil, a patente da tirzepatida só deve cair em 2033. A da semaglutida, do Ozempic, caiu em março, mas não deve derrubar os preços tão cedo, como mostrou uma reportagem recente da BBC News Brasil.

Segundo a Anvisa, atualmente existem oito processos em análise para o registro de novos medicamentos com o mesmo princípio ativo do Ozempic.

No Congresso, tramita em fase inicial um projeto de lei para suspender temporariamente a patente da tirzepatida para ampliar o acesso a tratamentos para obesidade, ainda restritos devido ao alto custo.

'Há indícios fortes de que grupos criminosos estão operando nesse ramo'

Ampolas foram encontradas dentro de embalagem de fone de ouvido, em Foz

Crédito, Fernando Otto/BBC

Legenda da foto, Ampolas foram encontradas dentro de embalagem de fone de ouvido, em Foz

As apreensões da Receita, Polícia Federal e Polícia Rodoviária Federal no Paraná têm aumentado de escala.

Em março, durante a visita da reportagem à alfândega, agentes na sede da Receita em Foz do Iguaçu abriam caixas e contabilizavam centenas de canetas e ampolas apreendidas em uma única operação. A carga encontrada em um carro e uma casa lotados de medicamentos foi avaliada em cerca de R$ 2 milhões.

Cláudio Marques, delegado da Receita, explica que grupos criminosos têm percebido a vantagem econômica da venda desses produtos — muito mais do que o cigarro, por exemplo, produto muito conhecido por ser contrabandeado pela fronteira paraguaia.

"Esses medicamentos acabam sendo muito mais vantajosos para grupos criminosos porque é um produto pequeno, não requer uma logística grande de veículos, como o cigarro", explica Marques.

A Polícia Federal também já identifica o envolvimento de grandes organizações criminosas no comércio dessas canetas.

"Temos apreensões na casa de milhares de canetas quase que diariamente. São indícios bem fortes de que grupos criminosos estão operando nesse ramo", diz o delegado Emerson Rodrigues.

Qualquer apreensão que é feita, explica o delegado, é encaminhada para a Receita, que instaura um procedimento administrativo, posteriormente enviado ao Ministério Público Federal (MPF), que vai decidir se apresenta denúncia para instaurar um inquérito.

"Isso vai depender se a pessoa está transportando pela primeira vez ou não, se ela já tem registro de outras apreensões", explica Rodrigues.

Uma vez investigada, a pessoa pode pegar de 10 a 15 anos de prisão, segundo o delegado, por poder ser condenada por um crime hediondo que coloca em risco a saúde pública.