Como a Copa do Mundo de futebol expõe a relação tensa entre seus três países-sede

Crédito, AFP via Getty Images
- Author, Anthony Zurcher, Jessica Murphy e Will Grant
- Role, BBC News
- Published
- Tempo de leitura: 7 min
É como chegar para um jantar no exato momento em que os anfitriões estão em meio a uma acalorada discussão.
Os torcedores que viajarem para a América do Norte, para acompanhar a Copa do Mundo 2026, irão encontrar três países-sede que passam por momentos de tensão.
O torneio será disputado em 16 cidades espalhadas pelos Estados Unidos, México e Canadá, que enfrentam um período turbulento em suas relações diplomáticas.
Os problemas atuais pareciam distantes quando os líderes dos três países se reuniram para o sorteio dos grupos da Copa do Mundo na capital americana, Washington DC, em dezembro. Eles chegaram a posar para uma selfie com o presidente da Fifa, Gianni Infantino.
Mas manter a mesma coesão ao longo de um torneio que irá durar 39 dias, provavelmente, será bem diferente.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, vem destacando sem rodeios que o seu país é a potência dominante no continente.
Isso fez com que viessem à tona as tensões bastante concretas existentes entre as três nações, em setores como o comércio, migração e tráfico de drogas, que entraram em ebulição desde que Trump voltou à Casa Branca, em janeiro de 2025.
Por outro lado, se tudo der certo, a Copa poderá estabelecer laços mais fortes entre os três países.
Tensões relativas ao comércio, ao turismo — e a Trump
Fim do Promoção Agregador de pesquisas
O México e o Canadá são os principais parceiros comerciais dos Estados Unidos. Mas eles não se esqueceram de que estavam entre os primeiros países a serem atingidos pelas tarifas de importação de Donald Trump.
O Canadá já havia se indignado com os repetidos comentários do presidente americano sobre transformar o país no "51° Estado" americano e respondeu com suas próprias medidas contrárias.
Províncias canadenses retiraram bebidas americanas das prateleiras e seus cidadãos reduziram consideravelmente suas viagens para o vizinho do sul, o que também acabou irritando os Estados Unidos.
Os problemas com os Estados Unidos também prejudicaram as relações entre o Canadá e o México, indica o diretor de política internacional da Universidade de Calgary, no Canadá, Carlo Dade.
O Canadá foi acusado de "trair" os mexicanos ainda antes do segundo mandato de Trump, quando autoridades americanas e canadenses acusaram o México de servir de porta de entrada para os investimentos chineses na América do Norte.
"Foi um completo desrespeito", comenta Dade.
O episódio levou o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, a também procurar remediar a situação com o México, enquanto tenta diversificar o comércio do país, se afastando dos Estados Unidos.
Três é demais
Esta é a primeira vez que a Copa do Mundo é realizada em três países. E, como o torneio de 2026 envolve um continente inteiro, existe um enorme número de autoridades envolvidas.
Com os torcedores viajando entre as três nações para acompanhar as partidas, o reforço dos controles de imigração dos Estados Unidos pode criar dificuldades logísticas e inflamar os nervos já fragilizados das pessoas envolvidas.
E os receios americanos com a segurança, amplificados pela guerra em andamento contra o Irã, poderão trazer ainda mais frustrações e criar o potencial de que incidentes aparentemente inócuos possam escalar de forma inesperada.
"Promover conjuntamente eventos esportivos globais não é necessariamente uma receita para um relacionamento agradável entre os países-sede", afirma Lindsay Sarah Krasnoff, escritora e professora de esporte global da Universidade de Nova York, nos Estados Unidos.
Krasnoff relembra que a Copa do Mundo Feminina de 2023, realizada na Austrália e na Nova Zelândia, teve resultados positivos. Mas o torneio masculino de 2002, no Japão e na Coreia do Sul, foi considerado um "saco de gatos" entre duas nações com um histórico longo e irregular.
"O evento não prejudicou as relações bilaterais, mas é considerado historicamente como uma espécie de empate", explica a professora.
A própria Fifa expressou grandes esperanças para este modelo.
"É um momento em que três países e todo um continente afirmam em conjunto: 'Estamos unidos para receber o mundo e oferecer a maior, melhor e mais inclusiva Copa do Mundo da Fifa já realizada", afirmou a organização dirigente do futebol mundial.
Tapando o sol com a peneira?
Os líderes de cada uma das nações podem desejar fazer uso do torneio não só para mostrar que eles conseguem se dar bem com seus vizinhos, mas para desmentir os críticos sobre questões domésticas.
Este, com certeza, é o caso do México, onde reina uma certa apreensão sobre a Copa do Mundo.
Existem dúvidas sistemáticas sobre a capacidade do principal aeroporto da capital mexicana, seu saturado sistema de transporte público e o próprio Estádio Azteca, na Cidade do México, agora renovado.
Isso sem falar na presença de membros de cartéis nas ruas, poucos meses atrás, em uma exibição de violência curta, mas generalizada.
Agora, o principal sindicato dos professores promove uma greve nacional, reivindicando melhores condições de trabalho e aumento das aposentadorias. Protestos em massa ameaçam fechar as principais vias que levam aos jogos.
Seu slogan é "sem solução [para suas exigências], a bola não rola".

Crédito, AFP via Getty Images
Mas, apesar de todas as dificuldades, a presidente do México, Claudia Sheinbaum, permanece resoluta e confiante.
"Este é o momento de presenciar o melhor futebol do mundo e mostrar a todos quem somos", declarou ela no ano passado, "não só um país com imenso patrimônio cultural, mas de pessoas empoderadas."
Seria errado tapar o sol com a peneira, encobrindo os problemas enfrentados pelo México durante a preparação para a Copa, defende o jornalista esportivo mexicano Rafael Puente.
"Espero, realmente, que os torcedores mostrem paciência e bom comportamento, frente a alguns desses problemas que não podemos esconder", destaca ele.
"Só o que podemos esperar é a animação, ilusão e expectativa que o povo mexicano demonstrou no passado, particularmente sobre a participação da seleção nacional."
Os objetivos do trio além do torneio
Analistas indicam que os três vizinhos da América do Norte poderão atingir outras conquistas, se conseguirem sucesso no esporte nas semanas que se aproximam.
O trio está em meio a uma difícil revisão do histórico acordo norte-americano de livre comércio, conhecido como USMCA, na sigla em inglês. Esta revisão trouxe incertezas sobre a parceria comercial do continente, mantida, de alguma forma, desde 1994.
O México já iniciou negociações formais com os Estados Unidos, o que deverá ser seguido pelo Canadá.
Os canadenses buscam fortalecer seus laços comerciais com a China, enquanto o México aumentou suas tarifas de importação sobre o país asiático.
Ambos se movimentam em direções diferentes em relação ao "aumento da importância da China como preocupação primária" no governo Trump, segundo Dade.

Crédito, Getty Images
A Copa do Mundo oferece uma oportunidade para a diplomacia, como pudemos observar quando Trump, Carney e Sheinbaum se reuniram, sorrindo, durante o sorteio dos grupos em dezembro.
"Quando você reúne os líderes, geralmente sai algo bom", comenta Dade.
Trump se vangloria frequentemente do seu país como o "mais atraente" do mundo. Ele certamente considera a Copa do Mundo como uma oportunidade de colocar os Estados Unidos sob os holofotes mundiais.
Seu desejo de dominar os acontecimentos, seja comparecendo a eventos ou disparando postagens na rede Truth Social, pode alimentar ressentimentos entre os dois países vizinhos — e prejudicar as relações diplomáticas no continente a longo prazo.
Por outro lado, ele investiu pesadamente no sucesso do torneio e pode se esforçar ainda mais para evitar os incidentes diplomáticos que poderiam prejudicar os eventos.
O futebol é uma caixinha de surpresas, diz o velho ditado. E tão imprevisíveis quanto o próprio esporte são os possíveis resultados deste novo experimento, de reunir três países para promover uma Copa do Mundo.
"Já se sabia desde o princípio que seria muito complicado, desde a definição dos países-sede", conclui Krarsnoff.































