'Crise de quê?': Flávio Bolsonaro aposta em Trump e debate sobre facções contra desgaste do caso Master

Crédito, Reprodução/Instagram/@flaviobolsonaro
- Author, Leandro Prazeres
- Role, Enviado especial da BBC News Brasil a Washington
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Em meio ao momento mais delicado da sua pré-candidatura à Presidência da República até agora, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) conseguiu um encontro com o presidente americano, Donald Trump, algumas fotos no Salão Oval da Casa Branca e minimizar a crise que atingiu sua pré-campanha e tentou mudar o foco do debate.
Em vez da ligação do senador com o banqueiro Daniel Vorcaro, Flávio focou sua passagem por Washington na defesa de que o governo norte-americano designe facções criminosas como o Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas internacionais.
A viagem foi considerada um sucesso por seus assessores e aliados em Washington. Apesar disso, Flávio deverá deixar a capital norte-americana na quarta-feira (26/5) sem o apoio formal de Trump à sua candidatura. Questionado pela BBC News Brasil, ele disse que não chegou a pedir apoio de Trump à sua campanha.
"Não tem declaração de nada de apoio. Como não deveria ter, como não poderia ter e como eu jamais pediria que isso acontecesse", disse.
O encontro com Trump vinha sendo cercado de suspense por seus assessores mais próximos e aconteceu três semanas depois de seu principal concorrente, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ter sido recebido por Trump, também na Casa Branca.
Segundo o senador, seu encontro com Trump teve 1h40 e foi recebido com "enorme cordialidade" pelo presidente Trump.
"A primeira coisa que ele fez foi perguntar sobre meu pai. Perguntou sobre as condições da prisão, sobre como ele está, sobre como a família tem lidado com tudo isso. Foi um gesto humano", declarou.
A duração exata da reunião, no entanto, não pôde ser averiguada porque, até o momento, o encontro não foi comunicado na agenda oficial de Trump.
Fim do Promoção Agregador de pesquisas
Por um lado, o encontro tenta colocar um fim a uma sequência de quase duas semanas de notícias ruins para a sua pré-campanha que começou quando o site The Intercept Brasil revelou mensagens e áudio em que Flávio pede R$ 60 milhões ao banqueiro Daniel Vorcaro para, supostamente, financiar o filme DarK Horse, uma cinebiografia sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Após a revelação, no entanto, Flávio negou qualquer irregularidade no pedido e disse que o dinheiro era exclusivamente para o filme. Mesmo assim, pesquisas de intenção de voto apontam queda de Flávio nas simulações de primeiro e segundo turno. O agregador de pesquisas da BBC News Brasil, por exemplo, coloca Flávio atrás de Lula nos cenários de segundo turno.
Por outro lado, o encontro mostra que a família Bolsonaro ainda mantém algum prestígio junto a Donald Trump.
Integrantes do staff de Flávio afirmam que o encontro foi articulado pelo ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que está radicado nos Estados Unidos desde o ano passado e que mantém laços com integrantes da direita conservadora que dão apoio a Donald Trump.
Ao mesmo tempo, Flávio aproveitou o encontro para tentar mudar o foco do debate do período pré-eleitoral.
Baseado em pesquisas que apontam que a segurança pública é um dos itens que geram maior preocupação na população e onde o governo Lula tem avaliação baixa, Flávio focou seu discurso após o encontro na pauta do combate ao crime organizado.
Minimizando a crise
A preocupação em afastar Flávio da crise do Banco Master era mencionada por interlocutores do presidente Lula desde a semana passada, quando a visita do senador a Trump foi mencionada. Segundo eles, o encontro seria uma espécie de "cortina de fumaça" para desviar do noticiário negativo gerado pela suposta ligação de Flávio com banqueiro Daniel Vorcaro.
A tentativa de blindar Flávio em relação ao caso Master durante sua passagem por Washington se materializou minutos antes da entrevista coletiva que Flavio concedeu após o encontro com Trump.
Sua assessoria reuniu os jornalistas presentes para informar que encerraria a entrevista caso os repórteres fizessem perguntas que não fossem relacionadas à agenda com Trump.
Apesar disso, os repórteres questionaram Flávio sobre o assunto. Questionado pela BBC News Brasil sobre se a agenda com Trump seria capaz de estancar a crise em sua candidatura, Flávio minimizou a queda nas suas intenções de voto.
"Uma crise de quê? Aqui é uma campanha eleitoral. Ela tem altos e baixos. Então, eu estou muito seguro de que eu sou a alternativa, a única alternativa que esse país tem de evitar que nós tenhamos mais quatro anos de um governo terrível", disse.
Em outro momento, Flávio voltou a defender que apoia a criação de uma comissão parlamentar mista de inquérito (CPMI) sobre o Banco Master.
"Eu já falei tudo que eu tinha que falar sobre esse assunto. Não tenho absolutamente nada a esconder. É por isso que eu insisto aqui o tempo inteiro. Vamos instalar a CPMI do Banco Master. Eu desafio o governo Lula a colocar a sua base para pressionar o presidente do Congresso para que ela seja instalada. Isso não acontece porque ele tem muito a explicar ainda", afirmou o senador.
Ainda durante a entrevista coletiva, Flávio Bolsonaro criticou o Ministério das Relações Exteriores (MRE) por não ter cedido um espaço para a realização da entrevista coletiva.
Segundo sua assessoria, o parlamentar enviou um pedido por e-mail na segunda-feira (25/5) requisitando apoio para a organização da entrevista coletiva por conta da condição de senador da república de Flávio Bolsonaro. O argumento é de que, como representante do Senado, Flávio deveria ter tido o apoio da Embaixada do Brasil em Washington.
A BBC News Brasil apurou junto a diplomatas e técnicos do Itamaraty que o pedido feito pela assessoria de Bolsonaro foi negado porque não teriam sido reunidos os elementos que comprovassem o caráter oficial da visita. Uma fonte disse à BBC News Brasil em caráter reservado que o pedido de Flávio não teria sido feito por meio dos canais oficiais de comunicação entre o Senado e o MRE.

Crédito, Ricardo Stuckert
Mudando o foco
Sobre o encontro, Flávio Bolsonaro afirmou que um dos principais pontos da conversa foi o seu pedido para que o governo dos Estados Unidos designe facções criminosas brasileiras como organizações terroristas.
"Enquanto Lula vai de joelhos, rastejando, para implorar ao presidente americano Trump que não declare organizações criminosas, como o PCC e o CV, como terroristas, eu faço o contrário", disse. "Fui exatamente fazer esse pedido expresso a ele."
Flávio vem defendendo essa tese, enquanto o governo Lula rebate afirmando que isso poderia ser usado para justificar eventuais ações militares norte-americanas em território brasileiro.
O senador, porém, refutou esse argumento.
"Elas são, sim, organizações terroristas. Controlam territórios inteiros no Brasil pela força", disse.
Segundo o pré-candidato do PL, Trump disse que avaliaria o pedido, mas não deu detalhes sobre se o presidente norte-americano irá ou não acatá-lo ou mesmo quando isso poderia acontecer.
"Combater o PCC e CV é interesse compartilhado entre os dois países. Eu disse ao presidente Trump que, a partir de janeiro de 2027, o Brasil vai integrar o Escudo das Américas", afirmou, mencionado uma aliança internacional liderada pelos Estados Unidos e que conta com a participação de países comandados por presidentes de direita como Equador, El Salvador, Paraguai e Argentina.
Ainda falando sobre segurança pública, Flávio foi questionado sobre uma postagem feita em suas redes sociais em que ele dizia ter "inveja" de os Estados Unidos terem realizado bombardeios contra embarcações supostamente transportando drogas na costa de países sul-americanos.
"Que inveja! Ouvi dizer que há barcos assim aqui no Rio de Janeiro, na Baía de Guanabara, inundando o Brasil com drogas. Você não gostaria de passar alguns meses aqui nos ajudando a combater essas organizações terroristas?", questionou Flávio em outubro de 2025.
Indagado pelo portal UOL, ele negou ter defendido bombardeios norte-americanos em território brasileiro.
"Não pedi que eles fizessem alguma interferência aqui, que eles bombardeassem navios aqui. Eu só falei: 'Olha, aqui também acontece a mesma coisa'. Foi isso que eu quis dizer", disse.
Flávio também mencionou que as terras raras e os minerais críticos brasileiros foram tema do encontro.
"Somos a única alternativa real à China para o mundo livre. Sob meu governo, haverá parceria estratégica de longo prazo nesse setor."
O filho de Jair Bolsonaro (PL) afirmou ainda que o convite para a reunião partiu da própria Casa Branca.
Ao final da entrevista coletiva, Flávio recebeu o ex-conselheiro de Donald Trump, Jason Miller, que declarou seu apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro à presidência.
Flávio disse avaliar que o fato de ter sido recebido por Trump mostra prestígio.
"Quero também registrar algo que, ao meu conhecimento, é inédito na história do Brasil. Nunca antes um presidente dos Estados Unidos recebeu no Salão Oval um pré-candidato brasileiro à presidência da República em pleno ano eleitoral. Isso não é coincidência", disse.
Reunião observada
Do outro lado, no governo do presidente Lula, ainda não houve nenhuma manifestação oficial sobre o encontro entre Flávio e Trump.
Um diplomata ouvido pela BBC News Brasil em caráter reservado afirmou que, em princípio, o encontro entre Trump e Flávio não representou uma interferência norte-americana nas eleições brasileiras.
Ele disse que seria prematuro fazer essa avaliação apenas com base no que Flávio disse durante a entrevista coletiva e sem nenhum outro elemento oriundo do governo norte-americano.
Na semana passada, interlocutores do presidente Lula faziam uma análise semelhante, também em caráter reservado.
Assessores do presidente Lula não descartam que Trump ou outros integrantes do seu governo, especialmente os mais ligados ao bolsonarismo, possam tentar interferir nas eleições deste ano em favor de Flávio Bolsonaro.






























