Por que medir qualidade do sono pode estar fazendo você dormir pior

Ilustração de um homem dormindo, com uma expressão preocupada no rosto, usando um smartwatch com quatro faixas coloridas na tela; as cores parecem estar refletindo na parede e no rosto e corpo do homem enquanto ele tenta dormir.
    • Author, Ashitha Nagesh
    • Role, Da BBC News
  • Published
  • Tempo de leitura: 7 min

Índices de sono, magnésio, máquinas de ruído branco — o que antes era o simples ato de dormir se tornou um campo de batalha.

Alguns têm chamado essa tentativa de otimizar o sono de "sleepmaxxing" (ou "maximização do sono"). Mas se levarmos isso ao extremo, podemos acabar sofrendo com ortossônia — o termo clínico para a obsessão por alcançar o sono perfeito.

Embora essa não seja formalmente reconhecida como uma condição no Reino Unido, médicos disseram à BBC que notaram sinais de ortossônia em seus pacientes, com alguns levando os dados de seus monitores de sono para as consultas, convencidos (erroneamente) de que estão com algum distúrbio do sono.

Essa fixação está, na verdade, piorando o sono das pessoas, alertam eles.

Afinal, como e por que o sono se tornou tão complicado? E se otimizar o sono não funciona, qual é o segredo para uma boa noite de sono?

'As pontuações de sono são completamente inventadas'

O primeiro rastreador de atividades físicas comercial a incorporar a análise do sono foi o Fitbit Classic, em 2009.

Desde então, muitas outras empresas — incluindo Garmin, Whoop e Apple — integraram rastreadores de sono em dispositivos de pulso, assim como anéis inteligentes como Oura, Ultrahuman e RingConn.

Esses dispositivos variam, mas, em geral, todos fornecem aos usuários um relatório da sua noite, dividido por estágios do sono: tempo acordado, sono leve, sono profundo e REM (movimento rápido dos olhos). Muitos também fornecem aos usuários uma "pontuação do sono".

Mas o conceito de uma pontuação do sono é "completamente inventado", de acordo com Alanna Hare, consultora de medicina do sono do Royal Brompton Hospital, em Londres.

"Não existe nada reconhecido na ciência do sono que seja uma 'pontuação do sono'", disse ela à BBC. "Isso foi criado pelos fabricantes [de dispositivos]."

Hare afirma ter notado que os rastreadores estão causando ansiedade entre seus pacientes.

"Tenho notado que mais pacientes vêm até mim com dados de vários aplicativos de monitoramento, com muitas perguntas sobre o sono que provavelmente está contribuindo para suas dificuldades para dormir", diz ela.

Embora alguns tenham feito exames médicos com resultados positivos, isso não dissipou seus medos, acrescenta ela.

"É ótimo que haja mais foco no sono como parte do bem-estar", acrescenta ela. "Mas o sono simplesmente não responde bem às tentativas de aperfeiçoá-lo."

Uma ação judicial proposta contra a Oura, apresentada no mês passado em San Francisco, alega que os anéis da empresa são incapazes de medir com precisão a qualidade e os estágios do sono, dependendo, em vez disso, de estimativas geradas por IA que têm "uma chance de acerto equivalente a cara-ou-coroa".

Em resposta, a Oura declarou à BBC que "mantém a sua posição em relação às nossas afirmações científicas, de pesquisa e de precisão".

"Estamos empenhados em comunicar de forma clara o que a Oura mede, o que estima e como os membros devem usar essas informações", acrescentou a empresa.

Impacto diurno

Estudos também mostram que os monitores de sono podem afetar seu desempenho durante o dia, mesmo que não sejam precisos.

Em um estudo da Universidade de Oxford, os participantes receberam dispositivos de monitoramento do sono que lhes atribuíam uma pontuação de sono.

As pontuações eram escolhidas aleatoriamente e não tinham relação com a qualidade real do sono dos participantes.

Ilustração de um homem usando um dispositivo de monitoramento do sono com um anel rosa, com anéis rosa emanando de sua cabeça. Ele está com a cabeça entre as mãos e parece ansioso.

No dia seguinte, os participantes avaliaram seu humor, níveis de fadiga e estado de alerta, antes de realizarem testes que verificavam sua concentração e tempo de reação.

Pesquisadores descobriram que as pessoas que foram informadas de que haviam dormido mal relataram se sentir mais fatigadas e menos alertas mentalmente — mesmo que as pontuações de sono fossem todas falsas.

'Ciclo de preocupação'

A britânica Jess Hill diz ter notado isso em si mesma depois de adquirir um relógio Garmin há alguns anos.

"Passei a usar o relógio como se fosse uma Bíblia para saber se dormi bem ou não", disse a profissional de RH de 32 anos, de Londres, à BBC.

"Eu pensava: 'Dormi muito mal, então vou ter muita dificuldade hoje', mesmo que na verdade eu provavelmente tivesse dormido bem. Se eu tivesse dormido muito bem, eu estaria convencida de que conseguiria dar o meu melhor — mesmo estando cansada, eu me esforçava para superar as dificuldades."

Jessica Hill, uma mulher na casa dos 30 anos com longos cabelos castanho-avermelhados, sorri para a câmera enquanto apoia o queixo na mão; ela veste uma blusa branca de mangas curtas com gola e um smartwatch Garmin no pulso. Ela está sentada em uma cadeira de madeira, e uma grande planta doméstica pode ser vista ao fundo, fora de foco.

Crédito, Jess Hill

Legenda da foto, Jess Hill ficou "obcecada" com os resultados dos testes de sono do seu Garmin por cerca de três anos

Sua "obsessão", como ela descreve, por obter uma alta pontuação de sono durou três anos, até que, no início deste ano, ela começou a perceber que o relógio não estava refletindo como ela realmente havia dormido.

"Na semana passada, fiquei acordada por quatro horas durante a noite, e meu relógio marcou 'uau, que ótima noite de sono!' — eu literalmente fiquei acordada da 1h da manhã às 5h da manhã", diz ela.

A BBC entrou em contato com a Garmin para obter um posicionamento.

Imagem composta de duas capturas de tela das páginas de monitoramento do sono no aplicativo Garmin. A captura de tela à esquerda mostra a pontuação do sono de um único dia, indicando que o usuário obteve 73 de 100 pontos. A captura de tela à direita mostra um gráfico com uma visão geral das pontuações de sono do usuário ao longo de 12 meses.
Legenda da foto, Os resultados dos testes de sono de Jess não correspondiam a como ela realmente se sentia

Neil Stanley, especialista em sono e autor do livro Como Dormir Bem, argumenta que encarar o sono como se fosse um jogo — com pontuações — está criando mais distúrbios do sono.

"O problema de monitorar o sono é que isso lhe dá um número, e isso significa que você tem uma meta", disse ele à BBC. "Então você entra nesse ciclo de preocupação com a qualidade ou a quantidade do seu sono com base em números."

Ele afirma ter realizado pesquisas sobre actigrafia – dispositivos usados no pulso para monitorar o sono – há cerca de 40 anos.

Embora os rastreadores comerciais atuais sejam um pouco mais sofisticados, eles funcionam de maneira muito semelhante – medindo seus movimentos – e têm as mesmas limitações, afirma ele.

"Se você quer medir o sono, precisa medir o cérebro", acrescenta Stanley. "A menos que você esteja medindo as atividades cerebrais, você não está medindo o sono."

Então, como podemos realmente dormir bem?

Hare recomenda:

  • Manter o quarto fresco, escuro e silencioso — dentro do razoável. "Isso não significa que precise estar completamente escuro, exatamente a 16°C ou totalmente silencioso", diz ela. "Deve ser fresco, escuro e silencioso."
Ilustração de uma pessoa deitada, dormindo na cama sob lençóis brancos, rodeada por tons suaves de azul e pouca luz.
  • Ver luz brilhante pela manhã é bom para regular o ritmo circadiano, ou seja, o relógio biológico do corpo.
Ilustração de uma mesa de cabeceira com um abajur aceso, um livro fechado e um pequeno relógio, projetando uma luz aconchegante em um quarto com pouca luz.
  • Praticar exercícios leves e seguir uma "dieta saudável, ao estilo mediterrâneo, com bastante variedade de legumes".
Ilustração de uma pessoa estendendo o braço esquerdo atrás da cabeça.
  • Acima de tudo, mantenha a simplicidade — "qualquer outra coisa, você não precisa".