O 'vendedor de venenos' que forneceu substâncias tóxicas para pessoas em todo o mundo

Kenneth Law em close, de óculos, olhando para a câmera

Crédito, PA Media

Legenda da foto, Kenneth Law compareceu à Justiça em Ontário, no Canadá
    • Author, Sean Dilley
    • Author, Christina McSorley
    • Author, Olivia Ireland
    • Role, BBC News
  • Published
  • Tempo de leitura: 5 min

Importante: esta reportagem contém relatos de suicídios que podem ser perturbadores para alguns leitores.

O ex-chef de cozinha Kenneth Law, de 60 anos, declarou-se culpado de 14 acusações de assistência ao suicídio no Canadá, vendendo substâncias tóxicas na internet.

Ele se considerou culpado em relação às vítimas canadenses em um tribunal de Ontário nesta sexta-feira (29/5), após um acordo com os promotores, que retiraram as acusações mais sérias de assassinato.

As autoridades declararam que Law também vendeu cerca de 1,2 mil pacotes de substâncias tóxicas para pessoas de 40 países, que ele conheceu em fóruns de suicídio online.

Familiares de vítimas britânicas manifestaram sua revolta com os promotores do Reino Unido por não terem acusado Law, que foi relacionado à morte de 79 pessoas britânicas.

O Serviço de Promotoria do Reino Unido (CPS, na sigla em inglês) afirmou que o sistema jurídico canadense irá considerar as perdas das famílias britânicas.

Uma carta do CPS a que a BBC teve acesso afirmou que Law não enfrentaria acusações no Reino Unido devido às complexidades jurídicas.

O promotor especializado do CPS Andrew Hudson declarou que a inclusão de vítimas britânicas no processo judicial canadense seria a "forma mais rápida e eficaz" de garantir justiça.

Hudson afirmou que a extradição bem sucedida estaria "longe de ser garantida e sua conclusão levaria anos". E também haveria o risco, em caso de extradição, de que o eventual processo legal "pudesse ser bloqueado, com base no princípio de dupla penalização".

Ele acrescentou que "uma condição do nosso acordo com o promotor canadense foi que a sentença de Kenneth Law deve refletir o fato de que pessoas morreram na Inglaterra e no País de Gales, como resultado direto do uso dos produtos fornecidos por ele".

"Nenhuma vítima foi deixada para trás neste processo", segundo Hudson.

Law também foi relacionado à morte de cinco pessoas na Escócia e uma na Irlanda do Norte. A informação recebida pelo tribunal é que Law enviou 330 pacotes para 286 destinatários no Reino Unido.

Uma das vítimas de Law foi Ashtyn Prosser-Blake, de 19 anos, de Ontário. Ele morreu por suicídio em março de 2023.

"Ele era uma alma superfeliz, muito gentil, sempre procurando defender os desfavorecidos, os meninos perseguidos", contou à BBC sua mãe, Kim Prosser.

A saúde mental de Prosser-Blake se agravou após a pandemia.

Após se formar no ensino médio, ele cursou a faculdade em Toronto, no Canadá, por um ano, até que abandonou os estudos e se mudou de casa.

Ele "continuou simplesmente a enfrentar dificuldades" e acabou cometendo suicídio, segundo conta sua mãe.

"A dor de perder meu filho Ashtyn não diminui porque alguém fica atrás das grades", lamenta ela. "Não há consolo na minha jornada de cura ao ver outra pessoa sofrer."

Kim Prosser, com blusa marrom, de pé em um parque, olha para a câmera mostrando uma foto do seu filho Ashtyn.

Crédito, AFP via Getty Images

Legenda da foto, Kim Prosser mostra uma foto do seu filho, Ashtyn Prosser-Blake

No Reino Unido, o filho de David Parfett, Thomas, de 22 anos, usou a substância que teria sido vendida a ele por Law.

"Tom era uma pessoa que realmente via alegria na vida", conta Parfett. "Ele encontrava humor nos lugares mais estranhos. Penso na sua risada com frequência."

"Tom gostava muito de futebol e jogava bem. Sinto falta da oportunidade de acompanhar a Copa do Mundo 2026 com ele."

Tom pagou o equivalente a 50 libras (US$ 67, cerca de R$ 338) pela substância. Seu corpo foi encontrado em um hotel em Sunbury-on-Thames, no condado de Surrey (sudeste da Inglaterra), em 2021.

"Eu queria que Law respondesse às acusações no Reino Unido... ele realmente precisava enfrentar a justiça aqui", destaca Parfett.

Ele pede ao governo britânico que promova uma investigação pública sobre as mortes.

"Acho que é necessária uma investigação pública porque precisamos agir através de diversos departamentos governamentais e, infelizmente, não observamos esta coordenação e compreensão de como lidar com o problema hoje", lamenta ele.

"Basicamente, o governo não está cumprindo com sua obrigação de proteger a vida."

A BBC entrou em contato com o Ministério do Interior britânico, pedindo comentários.

Law recebeu 14 acusações de assistência ao suicídio no Canadá e 14 de assassinato, após sua prisão em 2023.

Sua captura foi possível graças a uma complexa investigação realizada por pelo menos 11 agências policiais e investigadores envolvidos de cerca de 12 países, incluindo o Reino Unido, a Itália e os EUA.

Law foi preso em maio de 2023, uma semana depois que uma investigação do jornal britânico The Times o acusou de vender veneno a pessoas jovens.

Um jornalista da publicação se apresentou como cliente e conversou diretamente com Law. Durante a conversa, Law teria orientado o jornalista sobre o uso dos seus produtos para "melhor garantir a morte", segundo o The Times.

O jovem Thomas Parfett, usando uma camiseta azul e óculos, em uma área externa coberta com cadeiras

Crédito, David Parfett

Legenda da foto, Thomas Parfett 'gostava muito de futebol', segundo seu pai

Detetives canadenses contaram à BBC em 2023 que Law dirigia diversos websites, oferecendo equipamento e substâncias para ajudar as pessoas a pôr fim às suas vidas.

O advogado de Law, Matthew Gourlay, havia confirmado à BBC que seu cliente se declararia culpado de assistência ao suicídio, com base em um acordo com os procuradores, que resultaria na retirada das acusações mais sérias de assassinato.

Segundo o Código Penal canadense, pessoas consideradas culpadas de assistência ao suicídio podem enfrentar penas de até 14 anos de prisão.

Caso você seja ou conheça alguém que apresente sinais de alerta relacionados ao suicídio, ou tenha perdido uma pessoa querida para o suicídio, confira alguns locais para pedir ajuda:

- O Centro de Valorização da Vida (CVV), por meio do telefone 188, oferece atendimento gratuito 24h por dia; há também a opção de conversa por chat, e-mail e busca por postos de atendimento em todo o Brasil;

- Para jovens de 13 a 24 anos, a Unicef oferece também o chat Pode Falar;

- Em casos de emergência, outra recomendação de especialistas é ligar para os Bombeiros (telefone 193) ou para a Polícia Militar (telefone190);

- Outra opção é ligar para o SAMU, pelo telefone 192;

- Na rede pública local, é possível buscar ajuda também nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), em Unidades Básicas de Saúde (UBS) e Unidades de Pronto Atendimento (UPA) 24h;

- Confira também o Mapa da Saúde Mental, que ajuda a encontrar atendimento em saúde mental gratuito em todo o Brasil.

- Para aqueles que perderam alguém para o suicídio, a Associação Brasileira dos Sobreviventes Enlutados por Suicídio (Abrases) oferece assistência e grupos de apoio.